Eu, Tituba, de Maryse Condé

Há autores que escrevem para contar, ainda que por meio da ficção, suas histórias mais pessoais. Acho válido, acho bonito. Mas fico feliz em saber que existem aqueles que escrevem para dar vida a quem viveu tão pouco. Maryse Condé se encaixa nessa segunda categoria.

O premiado Eu, Tituba é interessante porque, além de ser um romance com bases históricas, tem um pouco de Condé. Dá para sentir nas entrelinhas que a autora colocou sua dor e a de tantas outras mulheres negras na dor da personagem principal.

Eu, Tituba veio para tentar reparar o que a história tão egoisticamente deixou no esquecimento: a vida de uma figura de quem pouco sabemos. E o que sabemos vem dos registros que a marcaram para sempre com um simples adjetivo: bruxa.

Prefácio de Conceição Evaristo

Não é sobre Salem

Uma das minhas grandes expectativas em relação ao livro era o contexto histórico. Os famosos julgamentos das bruxas de Salem sempre me chamaram a atenção: primeiro pelo horror das perseguições; e segundo porque esse período, por mais grotesco que tenha sido, serve agora de estudo para levantar reflexões e debates sobre a misoginia nas sociedades ao longo dos séculos.

Eu, Tituba passa muito pouco pelos julgamentos do fim do século XVII. As condenações acontecem no livro, mas não da maneira como eu tinha imaginado. Isso acabou me decepcionando um pouco, embora eu entenda agora que Condé nunca teve a intenção de falar de todas as mulheres condenadas à forca. A protagonista é Tituba.

Um passado para Tituba

Tituba foi uma das mulheres condenadas no que ficou conhecido como a maior caça às bruxas da história. Junto de Sarah Osborne e Sarah Good, a escrava virou uma das principais figuras relacionadas aos julgamentos. No entanto, pouco se sabe dela.

Nossa história, do mundo real, falhou com Tituba. Tendo sido escrava, pouco importava para os registros quem era, de onde vinha e o que aconteceu a ela nos momentos que antecederam seu trágico fim.

Condé não aceitou isso e resgatou Tituba. Usando uma linguagem direta e pouco floreada, mas muito bem trabalhada, a autora deu uma história de vida para a mulher, com direito a um passado e a uma trajetória de luta constante que teve início antes mesmo de seu nascimento e terminou somente no dia da sua execução.

A Tituba do livro tem uma grande personalidade; mesmo aprisionada, não abaixa a cabeça. Até nos momentos de fraqueza mostra que tem força. Isso deixa a leitura agridoce, pois, ao mesmo tempo que dói acompanhar todas as desgraças da personagem principal, é emocionante ver que suas crenças são maiores que as adversidades do mundo e a violência do ser humano. Condé pode até ter inventado sua heroína dos sonhos, e há chances de a Tituba real ter tomado decisões e atitudes bem diferentes do que é retratado no livro, mas acho que essa nova versão prevalecerá a partir de agora.

A autora Maryse Condé

Misticismo

Apesar de criar uma nova abordagem (mais humana e menos fantasiosa) sobre o que é ser bruxa, o livro traz uma aura mística muito bem-vinda.

Em muitos momentos, os mortos são o único amparo de Tituba. Eles guiam, aconselham, tiram-na um pouco da esfera da solidão. Estão por toda parte, vivos em memória e espírito até onde as crenças permitem.

Ler ou não ler?

Eu, Tituba é um livro difícil de enfrentar: ele não vai aliviar a violência da escravidão ou assegurar que o desfecho seja menos triste. Sabemos como a história termina.

Mas imagino o propósito da autora de escrever uma “versão inventada dos fatos”, e acho lindo. Condé criou uma história forte, madura e vívida para os leitores. O livro não vai tirar todo o sofrimento pelo qual Tituba passou; isso nada poderá remediar. Porém, eterniza nas páginas seu nome e a liga a um passado, ainda que hipotético, ao qual pode pertencer.

– Não se aflija, Tituba! Você sabe disso, a má sorte é a irmã gêmea do negro! Ela nasce com ele, vai para a cama com ele, contesta o mesmo peito murcho. Ela come o peixe do seu cozido. Ainda assim, o negro resiste! E aqueles que querem vê-lo desaparecer da face da terra estarão sempre lá. Ainda assim, você será a única a sobreviver!

Avaliação: 4 de 5.

6 livros que gostei, mas provavelmente não lerei de novo

Sou uma pessoa de releituras, como já destaquei aqui quando tive oportunidade. O hábito é antigo, veio mais como uma solução que encontrei na época em que eu não podia comprar muitos livros. Hoje, fico feliz de ver que estou movimentando minha coleção e fazendo meu dinheiro render (porque livro é investimento) ao manter essa prática como uma prioridade nas minhas metas.

Mas reparei que alguns livros acabam virando leituras únicas na vida – não que eu já tenha vivido toda a minha vida para confirmar isso; é apenas o bom e velho chute. Os motivos variam, sendo que a releitura pode não acontecer justamente porque o livro é bom.

E isso é possível? Não faz muito sentido. Porém, foi assim que me senti com algumas obras. Valeram pela experiência, mas não me vejo revisitando suas histórias. Compartilho aqui seis exemplos:

1. O Clã dos Magos (e toda a trilogia), de Trudi Canavan

Ganhei o primeiro volume e comecei a ler sem muitas expectativas, até porque todo o burburinho em cima da trilogia já tinha passado há anos. Além disso, histórias sobre escolas de magia não têm muito apelo para mim.

Pois bem, fui surpreendida pelo desenrolar dos acontecimentos. Faltou ação, mas em nenhum momento senti que a leitura estava arrastada, apesar de ser um livro grande. Terminei já em busca dos dois outros volumes.

Deixei de lado porque na época os preços estavam meio salgados. E fui deixando de lado, até perder a vontade de seguir com a série.

2. Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce

Aproveitei que o livro estava em promoção e comprei. Confesso que a sinopse não me agradou de cara – a impressão que eu tive foi que Retrato do Artista Quando Jovem ia ser mais um clássico arrastado, embora muito elogiado.

O livro me lembrou O Ateneu. Mas O Ateneu que deu certo. Gostei muito do personagem principal. Gostei mais ainda de acompanhar suas mudanças. Não é uma leitura de fortes emoções, mas consegue alimentar o interesse do leitor.

3. Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf

Eu arriscaria dizer que Virginia Woolf é minha kryptonita. Quero muito gostar das obras dela, mas acho tudo muito difícil de absorver. É um fluxo de consciência tão grande que te deixa acuado.

Mrs. Dalloway me confundiu nas primeiras páginas. Felizmente, superei o estranhamento inicial e acabei gostando bastante do livro. Porém, foi uma leitura para ser vivida apenas uma vez. Prefiro lançar meus esforços de concentração em outros livros da autora.

Sinopse de Grandes Esperanças

4. Grandes Esperanças, de Charles Dickens

As coisas mudam um pouco com Grandes Esperanças. Tive altos e baixos lendo o livro; mais altos do que baixos, por sorte. É uma obra extensa, com muitas idas e vindas que tornaram partes da leitura arrastadas. Ainda assim, sendo um clássico, acho que recomendaria para todo mundo.

Aproveito para mencionar Os Maias, do Eça de Queirós. Digo a mesma coisa sobre ele: poderia ser mais enxuto e menos enrolado no desenvolvimento. Gostei do resultado final, mas não devo ler o livro novamente.

5. Anna Kariênina, de Liev Tolstói

Se não me engano, Anna Kariênina foi minha primeira experiência lendo um autor russo. Batendo o olho, parece um calhamaço bem intimidante, mas é só fachada.

A escrita é simples, o que contribui para a fluidez da leitura. Lembro que terminei o livro em pouco tempo, arrebatada pelo desfecho, ainda que eu já soubesse o que iria acontecer.

Não me recordo de ter lido mais de literatura russa depois desse livro, mas posso dizer que a obra de Tolstói me deixou ainda mais curiosa para ler outros autores.

Fiquei um pouco arrependida de não ter comprado uma edição física de Anna Kariênina. Para os próximos, vou caçar promoções.

6. On the Road, de Jack Kerouac

Meu primeiro livro de Jack Kerouac. E eu amei!

Não digo que a leitura é fácil. Há “blocões” de texto que podem intimidar muitos leitores. Além disso, os acontecimentos ocorrem de maneira tão desgovernada que fica fácil se perder no meio da narrativa, o que explica por que não pretendo reler a obra.

Mas o livro é maravilhoso! Em muitos momentos, senti-me tão livre quanto os personagens e me vi inserida na maioria das confusões. Não sei o que há em On the Road, porém, sempre imagino um carro cruzando um deserto ensolarado e seco, com a música do rádio no último volume.

No Jardim do Ogro, de Leïla Slimani

Quando começo a formar uma imagem do livro No Jardim do Ogro na minha cabeça, Canção de Ninar acaba ofuscando o irmão mais velho. Quando penso em falar sobre o que achei de No Jardim do Ogro, as passagens mais marcantes de Canção de Ninar inundam meus pensamentos.

Acho que isso é esperado de qualquer leitor que acaba consumindo mais de um livro do mesmo autor. No caso da Leïla Slimani, especialmente, é importante colocar suas duas únicas obras publicadas no Brasil lado a lado e apontar um favorito. Porque, para ser bem honesta, não vale a pena ler todos.

Isso não quer dizer que não gostei desse segundo livro. Apenas notei que certos assuntos abordados nele são parecidos com o que vi em Canção de Ninar. Até mesmo a atmosfera parece familiar, embora cada um tenha suas respectivas temáticas centrais.

Epígrafe do livro

Insaciável

No Jardim do Ogro é sobre Adèle, uma jornalista que vive em Paris com o marido e o filho pequeno. Ela não ama seu trabalho, mas o tem como um passatempo. Ela ama seu marido, mas não liga para o casamento. E o papel de mãe, apesar de ser gratificante, custa tempo e esforço.

Por trás do tédio da sua rotina, Adèle sente uma necessidade insaciável por sexo. Ela desmarca compromissos e mente para o marido para aplacar o vício em idas a bares à noite e encontros marcados com antigos contatos. Adèle segue uma vida dupla, até que é descoberta.

O livro poderia ser apenas sobre os impulsos sexuais de uma pessoa, mas, como em Canção de Ninar, existem camadas de interpretação. Há sempre a possibilidade de a história ser somente o que está na sinopse, porém, quero acreditar que a autora quis ir além – além dos vícios, além da tentação.

Casamento engessado

Não demora muito para perceber a falta de comunicação entre Adèle e seu marido. Essa falta de comunicação não é no sentido de que eles são frios um com o outro ou estão vivendo uma vida conjugal de fachada. A impressão que passa é que os dois (especialmente Adèle) estão vivendo fases diferentes do casamento.

Gosto do fato de Slimani não enfeitar as coisas. Isso influencia completamente a construção da personagem e até o tom da narrativa, que passam a ideia de rigidez característica de Canção de Ninar.

Adèle admite ver às vezes o filho como um fardo e o marido como uma decisão errada. Adèle deixa claro que se sente frustrada com o rumo que sua família está tomando. Ela sente a monotonia da rotina, a posição de boa esposa e mãe que empurram em sua direção como um papel que precisa desempenhar. E é essa obrigação, tão não bem-vinda, que alimenta a vontade de se sentir mais uma vez livre e no controle da sua vida.

Trecho de No Jardim do Ogro

Ler ou não ler?

No Jardim do Ogro não vai agradar todo mundo. Acho que ganhar o público não foi a intenção da autora quando resolveu escrever o livro. A história não possui o mesmo apelo de Canção de Ninar, seja por ausência de mistério, falta de um grande e aguardado acontecimento (no caso de Canção de Ninar, um assassinato) ou insipidez dos personagens.

Esse não é “o” livro – nem da vida e nem dentre os trabalhos de Slimani. Por outro lado, é interessante ver como a narrativa se desenrola. A história muda completamente lá pelo fim. Para quem começou refém dos seus próprios desejos, Adèle termina aprisionada de outras maneiras.

Esperando seu marido sair do banheiro, ela desdobra um papel e começa uma lista. Coisas a fazer, a recuperar, sobretudo. Ela tem as ideias claras. Vai limpar o cotidiano, livrar-se, uma por uma, de suas angústias. Vai cumprir seu dever.

Avaliação: 3 de 5.

Emma, de Jane Austen

Emma é um dos maiores livros escritos pela Jane Austen – deve estar par a par com Mansfield Park –, o que explica por que eu o deixei esfriando na estante por uns meses até encontrar coragem para lê-lo.

Ele é favorito de muita gente, mas também divide opiniões por ter uma personagem complicada. Foi o que mais pesou para mim, que já estava esperando pelo pior depois da leitura de Persuasion.

Agora que finalizei o livro e fiz uma lista mental de prós e contras, posso dizer que Emma é tudo aquilo que eu pensei que seria, mas muito mais em certos aspectos. Fazer esta leitura foi como reencontrar uma versão diferente e ao mesmo tempo familiar de Austen.

Críticas

Há sempre uma característica que procuro encontrar nos romances de Austen, pois acho que é uma das marcas registradas da escritora. Muito à frente do seu tempo, Austen soube usar o bom humor (acompanhado da acidez familiar) para dizer o que a incomodava na sociedade inglesa do século XIX.

A linguagem ácida que tanto defendo nas obras da autora está ainda mais marcante em Emma, pois segue toda a história do livro. No decorrer da leitura, é possível notar a superficialidade de algumas conversas e a frequência de erros e desentendimentos criados com base em opiniões preconcebidas sobre alguém só pela origem desconhecida ou posição social.

Lombada de Emma da edição da Arcturus Publishing

Emma, a vilã?

Não tem como falar do livro sem falar dela, a Emma. Totalmente à mercê da influência de quem já tinha lido a obra, eu estava preparada para encontrar uma personagem insuportável, que olhasse apenas para seu próprio umbigo.

Emma Woodhouse tem suas falhas, é verdade. Mimada, sempre teve todos os recursos financeiros para se apresentar de forma “respeitável” na alta sociedade. É também bem intrometida na vida das pessoas, tendo adotado Harriet Smith como seu projeto de caridade e se servido de cupido para encontrar um pretendente à amiga. No entanto, sua obstinação em não se casar me deixou admirada. Ela simplesmente foge do senso comum.

Austen construiu uma personagem forte em suas convicções. Muitas delas começam de maneira desastrosa, mas o que se deve levar de mais importante é que Emma aprende com os enganos. Demora? Sim. Dá raiva? Também. Para acertar, Emma precisa errar algumas (muitas) vezes.

Até mesmo nos momentos finais do livro vemos um resquício de egoísmo por ela querer a felicidade para si, o que a faz tomar mais decisões erradas sob a justificativa de evitar ser o motivo da tristeza alheia. Mas isso não faz dela uma vilã. Afinal, quem não quer ser feliz?

Emma é uma personagem a ser lapidada. Seus erros são o ponto de partida do livro, uma vez que levam à correção de todos os desentendimentos da história e ao amadurecimento do caráter. Ela é muito real, o que explica por que tantas pessoas cismam com ela (ao mesmo tempo que se reconhecem nela).

Ler ou não ler?

Dizer que achei o livro maravilhoso é querer puxar demais. Emma é uma obra grande para os padrões de Austen. Isso não seria um problema se todo o conteúdo agregasse à história, o que não aconteceu neste caso.

Acredito que Austen poderia ter sido mais sucinta. Alguns diálogos me pareceram desnecessários – não pelo teor da conversa, apenas porque não fazem muita falta.

Por outro lado, Emma diverte e surpreende. O início não é tão confuso como em Persuasion, o que já considero uma vitória.

Vale a pena conhecer o livro. Apesar de não ter o ritmo fácil de Orgulho e PreconceitoEmma não é o bicho-papão que eu imaginava.

“I have none of the usual inducements of women to marry. Were I to fall in love, indeed, it would be a different thing! but I never have been in love; it is not my way, or my nature; and I do not think I ever shall.”

Avaliação: 3.5 de 5.

Lendo e-books: Frida, The Memory Police e mais

Há anos adotei o e-book na minha rotina de leituras, mas ultimamente deixei esse formato de lado e priorizei o livro físico. Li um livro digital e outro em 2020 – nada que tivesse me prendido a atenção. Porém, nos últimos meses, minha vontade de ler e-books voltou, e preciso dizer que tenho encontrado livros maravilhosos.

Nunca falei de um e-book que li por aqui porque fico sem saber como tirar as fotos (sou o tipo de pessoa que precisa deixar tudo padronizado). A melhor forma que encontrei de não deixar as leituras passarem batido é juntá-las em uma publicação única e – adivinhem – padrão. Não sei qual vai ser a periodicidade disso; devo juntar leituras até achar que está bom o suficiente para publicar.

Trouxe desta vez os últimos quatro livros lidos no formato digital. Um deles foi o que me motivou a compartilhar minhas leituras em e-books:

1. Por Que Eu Não Converso Mais com Pessoas Brancas sobre Raça, de Reni Eddo-Lodge

Li este livro de não-ficção faz alguns meses. Cogitei trazer uma resenha sobre ele, mas desisti pela falta de foto.

Fiquei imensamente feliz de ter conseguido adicionar essa leitura no Kindle, primeiro porque foi de graça e segundo que vem de um gênero literário ainda pouco explorado de minha parte.

Não sei nem como explicar o impacto que o livro da Reni Eddo-Lodge teve sobre mim. É uma obra que dará enfoque ao racismo estrutural no Reino Unido (de onde a autora é), com menções e exemplos também dos Estados Unidos. Apesar da diferença geográfica, todas as questões abordadas pela autora podem ser debatidas no Brasil também.

Reni não faz rodeios; é direta ao dizer que falar com pessoas brancas sobre raça é importante, mas não uma obrigação que pessoas de cor precisam tomar para si. Reni fala sobre desentendimentos, más interpretações e o processo demorado e “custoso” a pessoas brancas para enxergar que estão em uma posição de privilégio pela cor e, em grande parte dos casos, classe social.

Reni também levanta a questão da imigração, o que só deixou a leitura mais interessante e enriquecedora. Esse livro foi com certeza um dos meus favoritos de 2020.

2. Identidade, de Nella Larsen

Achei a sinopse de Identidade bem interessante, mas foi a capa que me chamou a atenção (adoro colagens!). Os elementos visuais são fiéis à atmosfera do livro, e mesmo assim não dizem muito sobre a proposta central da história.

Gostei de conhecer Nella Larsen. Sinceramente, nunca tinha ouvido falar dela. Fui descobrir só agora que sua contribuição na literatura é antiga e marcante.

Em Identidade, a autora também vai abordar o racismo estrutural, mas sob uma perspectiva diferente. O debate sobre colorismo é bem forte, embora outros temas, como diferenças de classe social e gênero estejam enraizadas na história também.

Apesar da importância dos temas tratados, ainda tão atuais e discrepantes, o desenvolvimento da história é fraco. A meu ver, a autora poderia ter esticado mais o livro, trabalhando no background da amizade de Irene e Clare. Sendo tão curto, Identidade não me prendeu nem me deixou interessada em acompanhar o destino das amigas.

3. Frida – a biografia, de Hayden Herrera

Nunca me interessei pelas obras da Frida Kahlo, mas sempre achei que sua história de vida fosse tão interessante que ler sua biografia seria uma experiência única. E foi mesmo.

Frida foi tudo o que imaginei: amante da arte, da vida e da morte. Já imaginava que seu acidente tivesse gerado um trauma duradouro (basta ver as suas obras), até porque as cicatrizes e as consequências nunca foram embora. E mesmo assim ela viveu uma vida cheia de acontecimentos – muitos conturbados, pode-se dizer.

A biografia de Frida faz uma interpretação aprofundada de sua arte. Mesmo assim, o livro é bem equilibrado e dá para conhecer um pouco do gênio dela, suas ambições e posição política, além da devoção a Diego Rivera.

4. The Memory Police, de Yoko Ogawa

Pense em um livro bastante comentado. The Memory Police ainda não chegou ao Brasil, mas foi recomendado na gringa. Comecei a ler sem saber muito sobre a história e me deparei com uma distopia – gênero literário de que gosto e posso tirar várias reflexões no fim.

Acho que a maior cartada desse livro é seu tema principal: memórias. Não vou dizer que a maneira como Yoko Ogawa desenvolve a narrativa é original, mas tratar a memória como nossa identidade, uma extensão de nós mesmos e do papel que desempenhamos no planeta torna toda a experiência de leitura um aprendizado e um lembrete para valorizarmos nossas lembranças, por mais banais que possam ser.

Os momentos finais de The Memory Police são bizarros demais para tirar algum significado deles. Foi o que me impediu de dar uma nota maior para o livro, mas ainda o recomendo.

O que não deu certo em Pessoas que Passam Pelos Sonhos

Até agora estou sem saber se comento sobre Pessoas que Passam Pelos Sonhos. Terminei o livro há um mês, mas achei que não tinha por que falar dele. O primeiro motivo é que ele saiu pela extinta Cosac Naify, o que torna mais difícil de achá-lo agora. A outra razão diz respeito ao meu gosto pessoal. Eu simplesmente não gostei.

Perguntei para uma amiga minha se valia a pena dar minha opinião e ela disse que sim, pois até mesmo as leituras ruins são válidas de ser compartilhadas. Concordei.

O livro não é mal escrito. Longe disso. Acho que o autor tem certo domínio com as palavras e soube trabalhá-las quando quis, embora peque pelas descrições em excesso só para enfeitar a narrativa. Algumas passagens são interessantes. Podem emocionar, nos fazer sentir, refletir… Seriam bem aproveitadas se o desenvolvimento do enredo não comprometesse todo o resto. Talvez funcionassem melhor para outras histórias.

Parte de trás do livro com trecho

Pessoas que Passam Pelos Sonhos é confuso. E não propositalmente confuso; o livro não tem uma estrutura que o sustente. A história trata do encontro de duas vidas distintas que se conectam quase que instantaneamente pela sensação de desgaste familiar.

O encontro entre o taxista argentino Tortoni e o arquiteto brasileiro Rivoli não poderia ser mais estranho. Basta uma corrida para que ambos acertem uma viagem à Patagônia. Entendo que cada um tem seus motivos para partir, mas a maneira como Cadão Volpato fez isso acontecer pareceu, no mínimo, forçado.

Achei que a viagem fosse me oferecer uma luz sobre a história, mas a intenção não é revelada – eu, pelo menos, não achei algo que justificasse o livro. Pessoas que Passam Pelos Sonhos só fica mais confuso com o vai e vem de personagens, que desaparecem e reaparecem sem explicações. Pode ser intencional para nos aproximar da atmosfera do sonho, mas teve o efeito contrário.

Pessoas que Passam Pelos Sonhos é dividido em três partes

O livro amadurece em tempo, e só isso. É possível notar que a história vai ganhando uma carga mais política passada a primeira parte, mas Volpato não se aprofunda no assunto, nem para retratar a ditadura na Argentina ou no Brasil.

Pessoas que Passam Pelos Sonhos deixa de lado as reviravoltas e os grandes acontecimentos. O ponto central da história, mesmo tendo as turbulências políticas da década de 60 como pano de fundo, não foge do cotidiano. Assim fica difícil entender o propósito desse livro. Talvez Volpato não quisesse nada ao escrever a história, o que não vejo como um problema. Mas pode ser também que ele tenha pensado muito na mensagem que queria entregar e falhado na tarefa.

Resumo das minhas leituras de 2020

Finalmente podemos nos despedir de 2020 – e eu, como sempre, estou me despedindo com atraso. Não tenho palavras para descrever o ano passado. Além da situação mais óbvia, que é a pandemia, 2020 foi um teste de paciência para mim. 

Espero deixar todo o ano para trás. Estou desde março em casa, e achei que conseguiria me virar bem nesse caso, pois nunca fui de sair muito. Grande engano. O que mais desejo agora (e acredito que seja a vontade de muita gente) é pisar na rua e voltar a ver as pessoas. Vamos torcer para que, com a vacinação da população, 2021 torne isso tudo possível! 

Não me “redescobri” em 2020. Aliás, se tem algo que consegui foi aumentar meus níveis de estresse e raiva. Achei que fosse uma pessoa calma, mas me enganei. E agradeço meus vizinhos sem-noção de cima por me fazerem enxergar isso (só que não). 

No mais, 2020 foi um ano sem grandes acontecimentos no meu dia a dia. Trabalhei, assisti a algumas séries e filmes, li… E como li! 

Já imaginava que terminaria o ano com mais livros lidos do que em 2019, mas fiquei surpresa com a quantidade. Muitos livros foram releituras. Além disso, comecei a ler HQs, que incluí na contagem também.

Segue o resumo das minhas leituras em 2020: 

1. Livros lidos: 91. 

2. Livros relidos: 28. 

3. Melhores livros do ano: Nunca dá para escolher um… Intérprete de Males me surpreendeu muito no início do ano. Depois li algumas crônicas selecionadas de Clarice Lispector na edição Clarice na Cabeceira, e percebi que gosto muito mais da versão cronista da escritora (embora nem ela estivesse certa sobre seus textos não ficcionais). Outro livro que merece ser mencionado é No Seu Pescoço – adorei a complexidade, a diversificação de temáticas abordadas e a escrita de Chimamanda Ngozi Adichie. 

4. Piores livros do ano: Mil Beijos de Garoto foi com certeza o pior do ano (de muitos anos, na verdade). O maior problema do livro é a maneira como o romance é retratado, pois está longe de ser uma relação saudável. Há muita posse, raiva, ciúme, devoção. E dá para perceber que a intenção da autora não é criticar esses aspectos em um relacionamento, mas almejá-los.

5. Maior livro: The Heart’s Invisible Furies

6. Menor livro: O Amanhã Não Está à Venda

7. Edição mais bonita: Acho a capa de No Seu Pescoço muito bonita, mas fico na dúvida se é a edição mais bonita do ano. Tenho um fraco por colagens, então imaginem como fiquei ao ver Johnny Panic e a Bíblia de Sonhos

8. HQ favorita: Ainda estou começando a ler HQs, o que explica a lista enxuta do ano (foram sete). Gostei de Nimona e de Três Sombras, mas uma HQ que me deixou querendo mais foi Repeteco

9. Maior achado: Fiz algumas compras em sebos, principalmente usando a Estante Virtual. Achei ótimos livros e pretendo comprar muito mais nesta plataforma em 2021, pois foi graças a ela que conheci O Céu de Lima e encontrei Do Amor e Outros Demônios por um preço bacana.

Mulheres que Correm com os Lobos: reavivando o Self instintivo

Vou confessar que estava assustada para começar Mulheres que Correm com os Lobos. Mesmo sendo um dos livros mais vendidos do momento, ele é classificado por muita gente como enriquecedor e igualmente denso.

O livro é isso mesmo, carregado, mas no sentido mais positivo. Cru e poético, Mulheres que Correm com os Lobos é um mergulho nas águas profundas da psiquê feminina. Ler essa obra, que foi fruto de muito trabalho, pesquisa e vivência pessoal da psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés, nos faz voltar às origens para entender de que forma ocorreu o processo de domesticação da selvageria inata da mulher e como é possível recuperar parte da liberdade tomada, reprimida ou assassinada pelo comodismo.

O mais interessante é ver como Estés decidiu abordar temas centrais para o universo feminino, desde criatividade e carreira até sexualidade e amor. Destrinchando 19 histórias populares, Estés mostra como houve ao longo dos séculos esforços para limitar a natureza livre e instintiva da mulher.

Capítulo que analisa o conto sobre o Barba Azul

O livro abre com um dos contos mais famosos da literatura: o Barba Azul. Logo aqui, a mente aciona uma sirene de alerta para indicar as variações de perigo com as quais nos depararemos ao longo de Mulheres que Correm com os Lobos. Estés faz uma análise aprofundada de outros contos e mitos, como Patinho FeioVasalisaOs Sapatinhos Vermelhos e La Llorona, sempre com a ideia de que podemos tirar uma lição valiosa e nutritiva para nosso Self.

Estés também fala muito de morte, mas não no sentido literal. A morte, representada pela Mulher-Esqueleto e presente em A Donzela Sem Mãos, é parte do ciclo de renovação “vida-morte-vida”, o fim representativo da velha etapa para uma nova fase.

Trecho grifado de Mulheres que Correm com os Lobos

O livro é muito pessoal, pois cutuca o que dói, inflama a raiva acumulada e chama atenção para injustiças e perdas que as mulheres tiveram que enfrentar ao longo dos séculos. Por outro lado, Mulheres que Correm com os Lobos ensina e esclarece questões que parecem óbvias, mas precisam ser continuamente lembradas. Classifico minha experiência de leitura como um processo de autoconhecimento e, de certa maneira, de cura.

Trecho grifado de Mulheres que Correm com os Lobos

Mulheres que Correm com os Lobos despertou em mim a vontade de uivar novamente para tomar de volta meu senso crítico, minha criatividade e a direção do meu futuro. Volto a correr pela primeira vez em muito tempo. Por enquanto, não tenho hora para parar.

Apesar de tratar quase em sua totalidade da figura feminina, o conteúdo desse livro pode agregar valor a todo mundo. Leiam sem medo!

Alexandre, o contador pouco confiável

Não deu nem tempo de liberar direito a publicação de Vidas Secas e tratei de terminar Alexandre e Outros Heróis, mais uma obra de Graciliano Ramos que me surpreendeu – mas por motivos totalmente diferentes.

Achei que voltaria a ler algo do autor por Angústia, um livro muito bem falado por quem conhece melhor o trabalho do romancista, mas encontrei as histórias de Alexandre por acaso no sebo. Como não quis perder a oportunidade, comprei.

Alexandre e Outros Heróis é uma leitura rápida – tão rápida quanto Vidas Secas. Acredito que sejam os capítulos episódicos; se não isso, a linguagem que, embora tome a liberdade de criar termos e adotar expressões regionais, é bastante fluida e cativante.

Nota inicial de Alexandre e Outros Heróis

Nesse compilado de histórias, não espere encontrar a crítica escancarada da desigualdade social e os relatos das condições adversas da seca. As aventuras de Alexandre, caçador e vaqueiro de um olho torto, foram feitas para ser compartilhadas numa roda de conversa. São histórias cheias de tradições e imagens fantásticas do sertão nordestino relatadas por um personagem vivido – e, segundo ele mesmo, cem por cento honesto.

Os “causos” de Alexandre deixam qualquer um com vontade de saber mais. De estar presente para ser o primeiro a fisgar qualquer contradição, pois as histórias são por vezes tão absurdas que a situação fica cômica.

É o que Firmino, uma das pessoas acostumadas a ouvir Alexandre, faz: ele confronta quando encontra um buraco no relato do contador. E Alexandre não deixa barato, pois logo devolve as acusações com mais acusações. Quem vence? Alexandre, que tem a vantagem de contar com a palavra de Cesária, a esposa que só concorda.

As histórias de Alexandre ganham notoriedade pelo boca a boca; elas vão crescendo a ponto de não fazerem mais sentido. São sempre essas as melhores.

Capítulo de Pequena História da República, um dos livros de Graciliano Ramos que entraram para essa edição

Alexandre e Outros Heróis também reúne outros dois livros de Graciliano: A Terra dos Meninos Pelados (esse eu li e passei por cima) e Pequena História da República (uma leitura muito interessante, de linguagem descontraída, que aborda desde a queda do Império até a dissolução da República Velha no Brasil).

4 razões para ler Vidas Secas

Se alguém comentar com você sobre Vidas Secas ser um dos melhores clássicos da nossa literatura, acredite! A fama não veio simplesmente à toa.

A obra-prima de Graciliano Ramos foi uma das minhas leituras prediletas na época do ensino médio. Penei para ler alguns livros do vestibular até mesmo na minha fase mais aguda como leitora, mas Vidas Secas veio como uma surpresa positiva por inúmeras razões.

Sim, os motivos mudam de pessoa para pessoa, mas eu não poderia deixar passar a oportunidade de indicar esse livro. Aproveitei que fiz a leitura e estou com tudo fresquinho na mente para explicar por que Vidas Secas é uma daquelas histórias obrigatórias ao leitor.

1. Clássico acessível

Quando digo que Vidas Secas é um clássico acessível, não estou me referindo especificamente ao valor do livro – embora deva existir uma edição bem em conta. Acredito que uma das razões para as pessoas gostarem de Vidas Secas é a linguagem simples e direta, livre dos temidos floreios que encontramos em outras histórias.

Outro fator que contribui para a experiência é o tamanho do livro. São menos de 200 páginas que passam em um piscar de olhos. Arrisco dizer que a leitura consegue ser finalizada facilmente em um dia.

Capítulo sobre o Soldado Amarelo, o antagonista da história

2. Linguagem sem igual

Dando continuidade ao aspecto da linguagem (e como não falar dela?), fica claro que replicar Graciliano Ramos é uma tarefa difícil. É o tipo de narrativa que só encontramos aqui no Brasil: regional, rica, aberta a criações linguísticas.

Assim como comentei sobre Terra Sonâmbula, de Mia Couto, traduzir Vidas Secas também parece um desafio que poucos – para não dizer ninguém – venceriam. A originalidade na escrita de Graciliano Ramos impede que o impacto da leitura seja o mesmo para alguém que está lendo o livro em outro idioma.

3. Condições sociais

Vidas Secas trabalha muito com questões opostas. Nunca é meio termo; os males da seca, da terra castigada, levam o ser humano a ponto de se igualar ao status de animal. O personagem Fabiano fala em diversos momentos que é “bicho”, movido pela vontade de sobreviver e garantir a sobrevivência da família – mesmo nos momentos em que se descobre um ser civilizado, ele volta à condição animalesca.

O livro traz críticas, se não escancaradas, bem diretas sobre as diferentes posições sociais e o mau uso do exercício do poder sob a forma do Soldado Amarelo.

Capítulo sobre a cachorra Baleia (tente não sentir um aperto no coração!)

4. Baleia

Não tem como falar de Vidas Secas sem mencionar a Baleia.

Baleia é provavelmente a personagem mais humana da história. É muitas vezes quem provê, defende, presta socorro e dá atenção a todos os membros da família de Fabiano.

No fim, o maior desafio cai nas mãos do leitor. Tente não ficar surpreso com o desfecho que essa nobre cachorrinha teve.

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