Como sair de uma ressaca literária

Aos poucos, estou saindo de uma ressaca literária – a primeira, por sinal – que dominou minha rotina de leitura nos últimos meses.

Podemos concordar que é frustrante para uma pessoa que tem a leitura como hobby favorito simplesmente… deixar de ler.

Semanas passam e o mesmo livro, com pouquíssimos avanços na história. Nada flui, nada agrada. E o sentimento que domina é o do “leitor inútil”.

Algumas decisões que tomei, por mais pequenas que possam parecer, foram de grande ajuda para começar a dar fim ao período improdutivo da ressaca literária. Não vou dizer que são dicas certeiras, pois funcionaram para mim, mas podem não funcionar para outros. Porém, para quem vive uma fase ruim com livros, a melhor saída talvez seja a boa e velha tentativa.

1. Vá no seu tempo

Parece óbvio, parece fácil, mas não é. É um processo. Quantas vezes nós, leitores, nos sentimos frustrados por não conseguir ler e tentamos empurrar o livro mesmo assim? Já aconteceu comigo diversas vezes, e posso dizer que a experiência de leitura sempre foi desagradável.

Forçar uma leitura quando não temos vontade nenhuma de ler é a receita certa para o fracasso. Todas as vezes que fiz isso acabei penalizando o livro – pois é, coitado dele.

Imagine só: poderia ter sido um livro cinco estrelas ou até mesmo favoritado.

2. Evite calhamaços

Isso é um alerta: fuja dos livros grandes em ressacas literárias. Pode funcionar para algumas pessoas, mas acho mais fácil retomar o ritmo com leituras rápidas, pois parece que você está chegando a algum lugar. Termina um livro e logo engata outro. Isso é ótimo para ganhar a confiança do “rato de biblioteca” de volta e te anima a ler mais.

3. Opte por leituras mais leves

Sabe aquele livro fofinho ou água com açúcar guardado na estante? Ele pode ser uma boa opção para te salvar da ressaca literária. Ler livros pesados desgasta bastante a mente, e isso é o que não queremos durante uma ressaca literária.

Se você é do time das releituras, resgate um livro que te traz memórias boas – isso também ajuda. HQs são outros bons exemplos para dar aquele gás à leitura.

4. Não fique só no livro físico

Ok, talvez você prefira ler apenas livros físicos. E tudo bem. Mas, caso esteja aberto a experimentar outros formatos de leitura, recomendo testar os formatos digitais. Talvez se surpreenda.

Tenha em mente que ler com um e-reader é um processo. Você não vai amar da noite para o dia. Eu tive que me adaptar por uns meses.

E quando me adaptei…

Leio bem mais rápido no Kindle do que com livros físicos agora. Isso não quer dizer que deixei de gostar das versões em papel; apenas entendi que o formato digital pode ser bem versátil em algumas ocasiões.

Para quem gosta de ouvir podcasts, o audiobook pode ser uma boa solução para a ressaca literária.

5. Consuma conteúdos sobre livros

Essa dica pode não funcionar para todos, pois tem gente que não quer nem ouvir falar de livros quando está de ressaca literária.

Para mim, o que funciona é consumir certos conteúdos sobre livros – pode ser resenha escrita, resenha em vídeo, vlog de leitura, book haul… Enfim, qualquer coisa que remeta à literatura, mas não necessariamente ao ato de ler, sabe?

Quando vejo alguém mostrando indicações de leitura novas, fico mais animada para buscar saber sobre do que se trata o livro e já marco na minha lista de desejados.

A incógnita chamada Charlotte Salomon – e o livro que é igualmente um mistério

Capa do livro, com autorretrato da artista

Uma pena admitir, mas Charlotte é um livro fadado a permanecer fora do radar do grande público. Digo isso por “n” motivos. O principal deles talvez seja o fato de que Charlote Salomon, judia alemã morta aos 26 anos em Auschwitz, foi um mistério em vida e continua sendo um mistério até hoje.

Eu não a conhecia, até porque minha relação com a pintura não é tão próxima quanto a que tenho com a literatura. Honestamente, não sei o que me fez dar uma chance ao livro de David Foenkinos – talvez por vender uma ficção baseada em fatos reais ou a capa do livro, que replica um dos quadros mais emblemáticos da artista, seu autorretrato.

Talvez a gente caia no engano de pensar que um autorretrato irá nos dizer tudo sobre o artista, mas é uma armadilha.

Talvez seja mais simples pensar que o próprio artista saiba o que quer dizer sobre si mesmo na hora de criar seu autorretrato.

Pode até ser verdade para algumas pessoas, mas teria sido esse o caso de Charlotte Salomon?

O livro Charlotte conseguiu ser tudo e nada do que eu esperava.

Verso que abre o livro

Explico.

Charlotte é tão intrigante como a própria artista foi em vida. Sensível e poético, contado em versos que acabam cedo demais, ele reconstrói a trágica história de uma jovem mulher, ainda em tempo de conhecer um mundo sem guerra, superar o primeiro grande amor e descobrir o que gostava na pintura – e além dela.

Mas quanto do que Foenkinos escreveu era realmente Charlotte Salomon?

Foenkinos encheu Charlotte Salomon de sentimentos, manias e pensamentos que talvez não tivessem passado pela cabeça dela. O autor teve a liberdade de preencher as lacunas da história, mas dando sua própria interpretação dos acontecimentos.

Isso nos deixa com duas versões da artista – igualmente incompletas, igualmente misteriosas.

Charlotte é uma tentativa de prestar homenagem e fazer justiça a quem teve que lidar com problemas familiares, decepções e perseguições a vida toda.

A mensagem final que o livro me passou talvez não seja a mesma leitura que outras pessoas tiveram ou terão. De que você tira a arte dos breves momentos de felicidade, mas principalmente do sofrimento e da solidão. De que a arte está tão escondida dentro de você que é preciso cavoucar até atingir o fundo.

Charlotte Salomon provavelmente não chegou ao seu “fundo interior”. Não aos 26 anos.

Neste ano, farei 25 anos, e posso dizer que estou longe de entender minhas ambições, paixões, escolhas e arrependimentos.

O que esperar, então, de uma mulher de 26 anos com uma história de vida tão complicada? Perguntas sem respostas. E muitas, mas muitas suposições.

9 livros para 2022

Não gosto de criar listas por um motivo óbvio: nunca consigo completá-las. Mas resolvi dar um voto de confiança a mim mesma em 2022 – afinal, por que não? 

Separei nove livros para um ano que, espero, seja memorável tanto em realizações pessoais quanto em leituras. A lista que elaborei servirá de lembrete para não desviar da minha meta ou esquecer de ler o que eu me propus a ler ao longo dos próximos meses.

Entre os livros separados, incluí alguns que comprei no último ano e estou tentando criar coragem para lê-los, pois são verdadeiros calhamaços. Outros ainda pretendo comprar – decidi colocá-los como prioridade nas minhas próximas compras – ou quero ler pelos autores (já está na hora de eu criar vergonha na cara e conhecer essas vozes brilhantes da literatura). 

Enfim, aqui vai minha modesta seleção:

1. O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas

Aproveitei uma promoção na Amazon e comprei o e-book desse grande clássico uns bons meses atrás.

Estou tendo dificuldade para encontrar um bom momento para começar o livro, já que meu ritmo de leitura está baixo, mas, honestamente, acho que não li nenhuma crítica ruim sobre O Conde de Monte Cristo.

Nada como um novo ano para perder o medo de começar um calhamaço – e um que tem boas chances de entrar para os favoritos.

2. O Amor nos Tempos do Cólera, de Gabriel García Márquez

Uma das minhas metas para 2022 é comprar mais livros do Gabo para ampliar minha coleção. Depois de Cem Anos de Solidão e Do Amor e Outros Demônios, a vontade de ler mais obras do autor aumentou significativamente.

Escolhi O Amor nos Tempos do Cólera por ser um dos livros mais marcantes do Gabo, mas não pretendo parar nele. Neste ano, quero dar atenção especial aos trabalhos do escritor colombiano.

3. Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski

Essa foi uma das minhas compras de livro mais recentes, e não poderia estar mais realizada. Li poucos autores russos, mas minha experiência com as obras foi muito boa.

Dostoiévski desponta como um dos autores queridinhos de muita gente. Indo na onda do pessoal, acho que posso gostar muito d’Os Irmãos Karamázov. Torcendo para encontrar uma linguagem fácil e com bom ritmo de leitura.

4. Jane Eyre, de Charlotte Brontë

Estou há anos tentando encontrar um bom momento para comprar uma edição de Jane Eyre, mas sempre deixei passar para trás. Bom, não em 2022.

Sei que, entre as obras das irmãs Brontë, Jane Eyre é o favorito de muitas pessoas. Isso me deixa ainda mais curiosa para ler o clássico, já que sou completamente apaixonada por O Morro dos Ventos Uivantes.

5. Crônica do Pássaro de Corda, de Haruki Murakami

Outra meta para o ano é ler mais Haruki Murakami. Talvez ler até todos os livros dele. 

Comprei o e-book de Crônica do Pássaro de Corda e devo pegar para ler nos próximos meses. Adquiri recentemente pela Estante Virtual o Homens Sem Mulheres, que deve entrar para as próximas leituras também.

O autor está entre meus preferidos, então não pode faltar neste ano. Acho que vou até aproveitar a “temporada Murakami” e fazer um post ranqueando os livros dele em breve.

6. Mulheres, Mitos e Deusas, de Martha Robles

Tinha que aparecer um não ficção na lista. Ao longo do último ano, criei um desafio para mim mesma: sair da bolha literária que criei. Isso significa que estou dando mais chances a obras como Mulheres, Mitos e Deusas, que combina dois assuntos de que gosto muito – história e feminismo.

Comprei o e-book faz um bom tempo. Ele foi se perdendo na minha biblioteca virtual, e agora é a hora certa de resgatá-lo.

7. Kramp, de María José Ferrada

Sabe aquele livro pouco comentado que você encontra aleatoriamente enquanto navega sem propósito no site da Amazon? Kramp foi recomendado para mim enquanto lia a sinopse de outro livro. Desde que bati os olhos na capa, estou numa indecisão monstruosa: compro ou não compro?

Estou adiando essa aquisição porque o livro tem apenas 88 páginas e um preço salgado, mas estou certa de que terei minha edição logo mais.

8. Terra Estranha, de James Baldwin

Sem dúvida, James Baldwin é um dos autores que mais me deixam curiosa para conhecer. O que sempre me impede de comprar os livros dele é o preço (já perceberam que sou pão-dura?), mas decidi que deixarei de olhar para isso.

Incluí Terra Estranha na lista, mas quero ler todos os livros do autor. Tenho quase certeza de que se tornarão favoritos do ano.

9. O Mar Sem Estrelas, de Erin Morgenstern

Eu tinha que colocar uma fantasia, e esse livro gigantesco da Erin Morgenstern parece ser tudo aquilo que procuro em uma história do gênero: originalidade, com pistas intrigantes e mistérios que vão se revelando aos poucos.

Nos últimos anos, acabei me afastando um pouco da literatura fantástica, mas é uma vontade minha voltar a ler esses livros, que me abraçaram no início da minha jornada como leitora.

O Quinze, de Rachel de Queiroz

Falamos da literatura das secas e logo pensamos em grandes representantes dessa vertente. Difícil não se lembrar de Os Sertões, de Euclides da Cunha, ou Vidas Secas, do Graciliano Ramos. Mas e O Quinze, da Rachel de Queiroz?

A obra mais famosa da escritora cearense é de grande valor para a literatura brasileira. Ela já apareceu como leitura obrigatória em alguns vestibulares. Ainda assim, fica em segundo plano quando outros livros são postos à mesa. Por quê?

O Quinze é um clássico do regionalismo. Isso quer dizer que muitas características do movimento são transmitidas pelo livro. Isso pode explicar parcialmente a falta de interesse de muitos leitores. Se li Vidas Secas, por que ler então O Quinze, certo?

Não é bem assim.

Apesar das semelhanças, principalmente no que diz respeito à temática central do enredo – a seca que abala o Nordeste –, O Quinze consegue agregar à literatura que até então carecia de presença feminina (e uma tão forte como a de Rachel).

Conceição

O Quinze segue duas histórias que vão se entrelaçar em algum momento do livro. De um lado, Chico Bento, sua mulher e seus filhos, que são obrigados a deixar a terra devido às complicações da seca; do outro, servindo como uma espécie de “respiro” à situação complicada originada pela falta de chuva, o possível romance entre Vicente e sua prima Conceição.

Trecho do livro sobre o potencial romance entre Vicente e Conceição

A figura de Conceição é um dos pontos altos do livro. Como descrevê-la? Resumidamente, pode-se dizer que é uma mulher à frente de seu tempo: na casa dos 20 anos (naquela época, isso significava ter “ficado para titia”), focada na carreira e com sede insaciável de conhecimento.

A imagem de Conceição quebra o pensamento antiquado da época sobre o papel da mulher na sociedade. Rachel dá vida a uma personagem ponderada e independente. Apesar de desejar viver um grande romance, a personagem não é refém de sentimentalismos. Fazendo uso da razão, ela consegue medir os prós e os contras de ficar com Vicente ou seguir em sua empreitada profissional.

Rastro da seca

Rachel não ameniza a gravidade da situação ao descrever o rastro de morte e devastação deixado pela seca – o solo riscado de rachaduras, o ar condensado, a natureza sem vida, o sol escaldante. 

A seca não só torna o ambiente árido, como também encurta a vida dos que são atingidos em cheio por ela.

Parte de trás do livro, com citação

Em O Quinze, isso é perfeitamente representado pela imagem de Chico Bento e sua família. O fazendeiro é golpeado logo no início do livro ao se ver obrigado a abater ou vender seus animais, que não sobreviveriam ao clima. Além de perder o gado, Chico Bento se vê sem saída: por questão de sobrevivência, precisa abandonar sua terra.

O deslocamento não é fácil. A família precisa lidar com o mal-estar, a fome e a constante ameaça da morte pairando sobre cada um dos integrantes.

A seca termina, mas não vai embora

Assim como Vidas Secas evidencia o caráter cíclico das secas no Nordeste, O Quinze mostra que o problema da seca não termina com a primeira gota de chuva caindo do céu.

Os resquícios da devastação são vistos por toda parte até o cenário voltar a ganhar vida e o gado ser recuperado. Em alguns casos, onde a situação chega ao extremo (resultando em morte), a seca carimba permanentemente a sensação de perda e impotência nas pessoas.

Ler ou não ler?

Como todo clássico, acho que vale a pena dar ao menos uma chance ao livro.

O Quinze tem a seu favor a característica de ser uma obra curta e de linguagem simples, o que faz a leitura ser rápida e menos maçante.

As descrições desoladoras da seca criam o efeito desejado, mas o melhor fica para a participação de Conceição. Os pensamentos feministas da personagem, bem como seus fortes ideais políticos, são um contraponto interessante para a história.

O Quinze é um livro bem equilibrado. Apesar do destaque de Conceição e dos paralelos na narrativa, como a tentativa da autora de alçar um romance, a seca continua sendo a protagonista (e a vilã) nesta obra.

Novamente a cavalo no pedrês, Vicente marchava através da estrada vermelha e pedregosa, orlada pela galharia negra da caatinga morta. Os cavalos do animal pareciam tirar fogo nos seixos do caminho. Lagartixas davam carreirinhas intermitentes por cima das folhas secas no chão que estalavam como papel queimado.
O céu, transparente que doía, vibrava tremendo feito uma gaze repuxada.

Avaliação: 4 de 5.

1984, a distopia futurista que ficou velha

Depois que as obras de George Orwell entraram em domínio público, uma onda de edições bonitas de 1984 e A Revolução dos Bichos invadiu o mercado editorial. Vendo tanta opção à venda, fiquei um pouco desnorteada; não sabia para qual lado ia. Pareceu-me que o mundo inteiro tinha lido algo do autor. Pois bem: foi com uma sensação de obrigação que comprei meu exemplar de 1984. Optei pela edição clássica da Companhia das Letras – que, diga-se de passagem, é linda.

As pessoas pintam 1984 como um livro revolucionário – e, sem dúvida, é mesmo. Acho fascinante como o livro, publicado em 1949, conseguiu ficar ao mesmo tempo a par e à frente de sua época tanto nas questões político-sociais (vale lembrar que, logo após a Segunda Guerra Mundial, veio a Guerra Fria, perdurando até o início da década de 1990) quanto em avanços tecnológicos.

Deixo claro que gostei de 1984. É um livro bom e tem inúmeros atrativos, como a novafala – escritores que inventam idiomas sobem alguns degraus da minha escada fictícia do prestígio. Porém, não consegui afastar a leve impressão de que talvez a obra tenha chegado a mim tarde demais.

Vigilância constante por câmeras. Telas para comunicação. Propaganda maciça. Esse é o futuro tecnológico de 1984 que virou nossa realidade. Uma realidade que tem sido superada dia após dia, com invenções novas chegando, tecnologias que nem mesmo a mente brilhante (e um pouco vidente) de Orwell poderia desenhar.

Portanto, sob um ponto de vista totalmente subjetivo, imagine minha decepção ao encontrar um futuro que… envelheceu.

Acho que dei por falta de algo que pudesse me surpreender na obra, pois tudo o que encontrei não me pareceu uma grande novidade. Winston também não é um personagem carismático, o que me deixou mais na posição de observadora (seria eu “o olho que tudo vê”?), e não de alguém presente nos acontecimentos.

Trecho da obra-prima de George Orwell

Sendo franca, minha experiência com 1984 seguiu a mesma fórmula de seus pares Admirável Mundo Novo e Laranja Mecânica. A diferença é que adorei Laranja Mecânica e fiquei decepcionada com Admirável Mundo Novo, deixando 1984 entre os dois.

A violência e o forte apelo sexual estão presentes nas três obras. Imagine, então, como foi encontrar pela terceira vez as mesmas características dessas distopias do século XX, ainda que em graus de intensidade diferentes (Laranja Mecânica, por exemplo, é mais violento, enquanto Admirável Mundo Novo foca em sexualidade e reprodução).

Meu terceiro e último ponto “negativo” é que, logo depois de 1984, descobri Nós, do escritor russo Ievguêni Zamiátin. 1984 e Nós são dois livros muito parecidos. Eu, que não estudei a fundo as duas obras, vi semelhanças por toda parte – na construção dos personagens, na estrutura da narrativa, no enredo…

Nós foi escrito na década de 1920, e há discussões sobre como o livro de Zamiátin pode ter influenciado a obra de Orwell. Particularmente, gostei mais da obra russa. Pena que não ganhou a popularidade de 1984.

Longe de mim tirar o mérito de 1984. Essa obra fez o que poucas conseguiram fazer: virou um símbolo para a literatura mundial e atualmente serve de referência para lançamentos e projetos futuros. Esse é o poder da figura marcante do Grande Irmão.

Minhas melhores leituras do ano (até agora)

Não vou nem tentar comentar sobre todos os livros que li durante essa pausa nada breve, porque… Bem, acho que perderia um pedacinho da minha sanidade mental. 2021 está sendo um ano de poucas leituras em comparação com 2020, mas minha lista já acumula mais de 30 livros lidos.

Decidi então separar as melhores leituras que fiz neste período. Confesso que os quatro livros que selecionei me deixam com um misto de sentimentos contraditórios. São histórias incríveis e recomendo cada uma delas. No entanto, nenhuma foi cinco estrelas.

Há tempos me falta um livro que me deixe realmente animada. Estaria eu mais exigente ou passando por um descasamento com a literatura? De qualquer maneira, nenhuma das duas opções me conforta, e estou torcendo para virar o jogo até o fim do ano.

Enquanto não me aparece o livro, vamos conversar sobre aqueles que deram as caras por aqui e acrescentaram aprendizados valiosos na minha vida (um em especial fez o contrário: tirou algo de mim):

1. Nix, de Nathan Hill

Minha intenção era fazer um diário de leitura desse livro. Estou arrependida de ter deixado passar, pois teria muita coisa legal para comentar sobre ele. Li no início do ano, então pode ser que os acontecimentos não estejam bem alinhados em minha cabeça. Mas tudo bem, pois Nix é uma salada mista de linhas temporais e diferentes tipos de narrativa.

Não se intimide pelo tamanho do livro. Ele é grande, mas a história é boa demais para te deixar cansado com a infinidade de páginas. Elas passam, e passam rápido.

Posso descrever Nix como um drama familiar, mas resumi-lo a isso seria deixar de lado todas as pessoas, os traumas e as paixões da vida de Samuel Anderson, o protagonista.

Acho intrigante como livros semelhantes a Nix parecem mundanos demais e ainda assim nos cativam. Nix me fez pensar que até a história de vida mais simples é complexa e intrincada como um vitral bem trabalhado.

2. Born a Crime, de Trevor Noah

Trecho marcado de Born a Crime

Acho que já devo ter falado por aqui que não sou muito próxima a livros de não ficção. Da mesma forma que algumas pessoas têm dificuldade de imergir em mundos inexistentes (ou mágicos, como preferir), o problema da não ficção para mim está na característica de parecer muito monótona.

Born a Crime quebrou todas as barreiras que ainda existiam entre os livros de memórias e eu.

Achei engraçado (como já era de se esperar de um livro escrito por um comediante), mas comovente. Achei potente também. É curioso como achamos que conseguimos resumir algo tão complexo e cheio de complicações como o Apartheid. O Apartheid não termina logo na primeira frase. O Apartheid é carregado por anos, décadas, vidas inteiras. Basta ver como a segregação racial fez parte da infância do autor, que, felizmente, mantém vivo o debate sobre os reflexos do regime na África do Sul e no mundo.

Entendo agora por que Born a Crime conseguiu criar o burburinho que criou quando chegou no Brasil pela TAG Livros.

3. Pachinko

Capa de Pachinko com blurbs

Pachinko é exatamente o tipo de história que você acha que vai encontrar em um livro bom. Bem escrita e estruturada, a história acompanha gerações de uma família coreana que se vê refém da violência e do preconceito da dominação japonesa no início dos anos 1900.

Pachinko é um livro belo demais para ser resumido em poucas palavras. Ele vai falar de coisas boas, como amor, companheirismo e identidade, mas carrega a mancha do contexto histórico de guerra e opressão do século passado no Leste Asiático.

Como eu, você vai se encantar pelos personagens trabalhados por Min Jin Lee. O que não faltou foi desafio para o imigrante coreano da época, que saiu de um país irreconhecível pela dominação para outro ainda mais estranho, onde a discriminação e a exclusão nem eram disfarçadas.

4. Herdeiras do Mar

Herdeiras do Mar me quebrou. Quando penso em toda a raiva e tristeza que passei lendo este livro, fico até com um pé atrás para recomendá-lo. Mas recomendo, pois é uma história importante. É um lembrete de um passado sujo. É pela memória de todas as mulheres, adolescentes e crianças (sim, crianças) levadas pelos soldados japoneses para servirem de “damas de conforto” durante a dominação japonesa em países da Ásia – neste caso, a Coreia do Sul.

O livro peca um pouco no drama. No entanto, consegue arrancar facilmente uma reação do leitor. Você vai sentir horror, asco, indignação. Medo, vergonha. Mas esperança também por um desfecho feliz – ou, se não feliz, algo próximo a isso, na medida do possível.

A volta dos que não foram

Olá. Sim, sou eu. Estou viva e passo bem. Viva, mas menos leitora nos últimos tempos – o que para mim é como uma quase morte.

Depois de sete meses de hiato, decidi voltar. Não me lembro do que me fez parar de escrever para o blog. Provavelmente a falta de tempo. Com certeza não foi por falta de vontade.

Sinto que muitas coisas aconteceram de fevereiro para cá, mas também fico com a sensação de que só dei voltas na minha vida. Continuo no mesmo ponto em que parei, com a diferença de que estou lindamente vacinada e acumulei uma pilha de livros para ler.

Talvez isso explique em parte por que deixei “apseudocrítica” de lado por uns meses: não estou lendo – ou, pelo menos, não no ritmo que eu gostaria. E isso está me frustrando.

De fevereiro para cá, li alguns livros que ampliaram minha visão de mundo. Mal posso esperar para falar deles. Tenho ainda muitos livros interessantes na fila. Agora, quero compartilhar minhas impressões em tempo real por aqui.

Minhas postagens voltarão a ser recorrentes? Duvido muito. Mas vou aproveitar essa lufada repentina de ânimo que acabei de reconquistar e falar até onde conseguir sobre minhas leituras – e até mesmo a falta delas.

É bom estar de volta!

Eu, Tituba, de Maryse Condé

Há autores que escrevem para contar, ainda que por meio da ficção, suas histórias mais pessoais. Acho válido, acho bonito. Mas fico feliz em saber que existem aqueles que escrevem para dar vida a quem viveu tão pouco. Maryse Condé se encaixa nessa segunda categoria.

O premiado Eu, Tituba é interessante porque, além de ser um romance com bases históricas, tem um pouco de Condé. Dá para sentir nas entrelinhas que a autora colocou sua dor e a de tantas outras mulheres negras na dor da personagem principal.

Eu, Tituba veio para tentar reparar o que a história tão egoisticamente deixou no esquecimento: a vida de uma figura de quem pouco sabemos. E o que sabemos vem dos registros que a marcaram para sempre com um simples adjetivo: bruxa.

Prefácio de Conceição Evaristo

Não é sobre Salem

Uma das minhas grandes expectativas em relação ao livro era o contexto histórico. Os famosos julgamentos das bruxas de Salem sempre me chamaram a atenção: primeiro pelo horror das perseguições; e segundo porque esse período, por mais grotesco que tenha sido, serve agora de estudo para levantar reflexões e debates sobre a misoginia nas sociedades ao longo dos séculos.

Eu, Tituba passa muito pouco pelos julgamentos do fim do século XVII. As condenações acontecem no livro, mas não da maneira como eu tinha imaginado. Isso acabou me decepcionando um pouco, embora eu entenda agora que Condé nunca teve a intenção de falar de todas as mulheres condenadas à forca. A protagonista é Tituba.

Um passado para Tituba

Tituba foi uma das mulheres condenadas no que ficou conhecido como a maior caça às bruxas da história. Junto de Sarah Osborne e Sarah Good, a escrava virou uma das principais figuras relacionadas aos julgamentos. No entanto, pouco se sabe dela.

Nossa história, do mundo real, falhou com Tituba. Tendo sido escrava, pouco importava para os registros quem era, de onde vinha e o que aconteceu a ela nos momentos que antecederam seu trágico fim.

Condé não aceitou isso e resgatou Tituba. Usando uma linguagem direta e pouco floreada, mas muito bem trabalhada, a autora deu uma história de vida para a mulher, com direito a um passado e a uma trajetória de luta constante que teve início antes mesmo de seu nascimento e terminou somente no dia da sua execução.

A Tituba do livro tem uma grande personalidade; mesmo aprisionada, não abaixa a cabeça. Até nos momentos de fraqueza mostra que tem força. Isso deixa a leitura agridoce, pois, ao mesmo tempo que dói acompanhar todas as desgraças da personagem principal, é emocionante ver que suas crenças são maiores que as adversidades do mundo e a violência do ser humano. Condé pode até ter inventado sua heroína dos sonhos, e há chances de a Tituba real ter tomado decisões e atitudes bem diferentes do que é retratado no livro, mas acho que essa nova versão prevalecerá a partir de agora.

A autora Maryse Condé

Misticismo

Apesar de criar uma nova abordagem (mais humana e menos fantasiosa) sobre o que é ser bruxa, o livro traz uma aura mística muito bem-vinda.

Em muitos momentos, os mortos são o único amparo de Tituba. Eles guiam, aconselham, tiram-na um pouco da esfera da solidão. Estão por toda parte, vivos em memória e espírito até onde as crenças permitem.

Ler ou não ler?

Eu, Tituba é um livro difícil de enfrentar: ele não vai aliviar a violência da escravidão ou assegurar que o desfecho seja menos triste. Sabemos como a história termina.

Mas imagino o propósito da autora de escrever uma “versão inventada dos fatos”, e acho lindo. Condé criou uma história forte, madura e vívida para os leitores. O livro não vai tirar todo o sofrimento pelo qual Tituba passou; isso nada poderá remediar. Porém, eterniza nas páginas seu nome e a liga a um passado, ainda que hipotético, ao qual pode pertencer.

– Não se aflija, Tituba! Você sabe disso, a má sorte é a irmã gêmea do negro! Ela nasce com ele, vai para a cama com ele, contesta o mesmo peito murcho. Ela come o peixe do seu cozido. Ainda assim, o negro resiste! E aqueles que querem vê-lo desaparecer da face da terra estarão sempre lá. Ainda assim, você será a única a sobreviver!

Avaliação: 4 de 5.

6 livros que gostei, mas provavelmente não lerei de novo

Sou uma pessoa de releituras, como já destaquei aqui quando tive oportunidade. O hábito é antigo, veio mais como uma solução que encontrei na época em que eu não podia comprar muitos livros. Hoje, fico feliz de ver que estou movimentando minha coleção e fazendo meu dinheiro render (porque livro é investimento) ao manter essa prática como uma prioridade nas minhas metas.

Mas reparei que alguns livros acabam virando leituras únicas na vida – não que eu já tenha vivido toda a minha vida para confirmar isso; é apenas o bom e velho chute. Os motivos variam, sendo que a releitura pode não acontecer justamente porque o livro é bom.

E isso é possível? Não faz muito sentido. Porém, foi assim que me senti com algumas obras. Valeram pela experiência, mas não me vejo revisitando suas histórias. Compartilho aqui seis exemplos:

1. O Clã dos Magos (e toda a trilogia), de Trudi Canavan

Ganhei o primeiro volume e comecei a ler sem muitas expectativas, até porque todo o burburinho em cima da trilogia já tinha passado há anos. Além disso, histórias sobre escolas de magia não têm muito apelo para mim.

Pois bem, fui surpreendida pelo desenrolar dos acontecimentos. Faltou ação, mas em nenhum momento senti que a leitura estava arrastada, apesar de ser um livro grande. Terminei já em busca dos dois outros volumes.

Deixei de lado porque na época os preços estavam meio salgados. E fui deixando de lado, até perder a vontade de seguir com a série.

2. Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce

Aproveitei que o livro estava em promoção e comprei. Confesso que a sinopse não me agradou de cara – a impressão que eu tive foi que Retrato do Artista Quando Jovem ia ser mais um clássico arrastado, embora muito elogiado.

O livro me lembrou O Ateneu. Mas O Ateneu que deu certo. Gostei muito do personagem principal. Gostei mais ainda de acompanhar suas mudanças. Não é uma leitura de fortes emoções, mas consegue alimentar o interesse do leitor.

3. Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf

Eu arriscaria dizer que Virginia Woolf é minha kryptonita. Quero muito gostar das obras dela, mas acho tudo muito difícil de absorver. É um fluxo de consciência tão grande que te deixa acuado.

Mrs. Dalloway me confundiu nas primeiras páginas. Felizmente, superei o estranhamento inicial e acabei gostando bastante do livro. Porém, foi uma leitura para ser vivida apenas uma vez. Prefiro lançar meus esforços de concentração em outros livros da autora.

Sinopse de Grandes Esperanças

4. Grandes Esperanças, de Charles Dickens

As coisas mudam um pouco com Grandes Esperanças. Tive altos e baixos lendo o livro; mais altos do que baixos, por sorte. É uma obra extensa, com muitas idas e vindas que tornaram partes da leitura arrastadas. Ainda assim, sendo um clássico, acho que recomendaria para todo mundo.

Aproveito para mencionar Os Maias, do Eça de Queirós. Digo a mesma coisa sobre ele: poderia ser mais enxuto e menos enrolado no desenvolvimento. Gostei do resultado final, mas não devo ler o livro novamente.

5. Anna Kariênina, de Liev Tolstói

Se não me engano, Anna Kariênina foi minha primeira experiência lendo um autor russo. Batendo o olho, parece um calhamaço bem intimidante, mas é só fachada.

A escrita é simples, o que contribui para a fluidez da leitura. Lembro que terminei o livro em pouco tempo, arrebatada pelo desfecho, ainda que eu já soubesse o que iria acontecer.

Não me recordo de ter lido mais de literatura russa depois desse livro, mas posso dizer que a obra de Tolstói me deixou ainda mais curiosa para ler outros autores.

Fiquei um pouco arrependida de não ter comprado uma edição física de Anna Kariênina. Para os próximos, vou caçar promoções.

6. On the Road, de Jack Kerouac

Meu primeiro livro de Jack Kerouac. E eu amei!

Não digo que a leitura é fácil. Há “blocões” de texto que podem intimidar muitos leitores. Além disso, os acontecimentos ocorrem de maneira tão desgovernada que fica fácil se perder no meio da narrativa, o que explica por que não pretendo reler a obra.

Mas o livro é maravilhoso! Em muitos momentos, senti-me tão livre quanto os personagens e me vi inserida na maioria das confusões. Não sei o que há em On the Road, porém, sempre imagino um carro cruzando um deserto ensolarado e seco, com a música do rádio no último volume.

No Jardim do Ogro, de Leïla Slimani

Quando começo a formar uma imagem do livro No Jardim do Ogro na minha cabeça, Canção de Ninar acaba ofuscando o irmão mais velho. Quando penso em falar sobre o que achei de No Jardim do Ogro, as passagens mais marcantes de Canção de Ninar inundam meus pensamentos.

Acho que isso é esperado de qualquer leitor que acaba consumindo mais de um livro do mesmo autor. No caso da Leïla Slimani, especialmente, é importante colocar suas duas únicas obras publicadas no Brasil lado a lado e apontar um favorito. Porque, para ser bem honesta, não vale a pena ler todos.

Isso não quer dizer que não gostei desse segundo livro. Apenas notei que certos assuntos abordados nele são parecidos com o que vi em Canção de Ninar. Até mesmo a atmosfera parece familiar, embora cada um tenha suas respectivas temáticas centrais.

Epígrafe do livro

Insaciável

No Jardim do Ogro é sobre Adèle, uma jornalista que vive em Paris com o marido e o filho pequeno. Ela não ama seu trabalho, mas o tem como um passatempo. Ela ama seu marido, mas não liga para o casamento. E o papel de mãe, apesar de ser gratificante, custa tempo e esforço.

Por trás do tédio da sua rotina, Adèle sente uma necessidade insaciável por sexo. Ela desmarca compromissos e mente para o marido para aplacar o vício em idas a bares à noite e encontros marcados com antigos contatos. Adèle segue uma vida dupla, até que é descoberta.

O livro poderia ser apenas sobre os impulsos sexuais de uma pessoa, mas, como em Canção de Ninar, existem camadas de interpretação. Há sempre a possibilidade de a história ser somente o que está na sinopse, porém, quero acreditar que a autora quis ir além – além dos vícios, além da tentação.

Casamento engessado

Não demora muito para perceber a falta de comunicação entre Adèle e seu marido. Essa falta de comunicação não é no sentido de que eles são frios um com o outro ou estão vivendo uma vida conjugal de fachada. A impressão que passa é que os dois (especialmente Adèle) estão vivendo fases diferentes do casamento.

Gosto do fato de Slimani não enfeitar as coisas. Isso influencia completamente a construção da personagem e até o tom da narrativa, que passam a ideia de rigidez característica de Canção de Ninar.

Adèle admite ver às vezes o filho como um fardo e o marido como uma decisão errada. Adèle deixa claro que se sente frustrada com o rumo que sua família está tomando. Ela sente a monotonia da rotina, a posição de boa esposa e mãe que empurram em sua direção como um papel que precisa desempenhar. E é essa obrigação, tão não bem-vinda, que alimenta a vontade de se sentir mais uma vez livre e no controle da sua vida.

Trecho de No Jardim do Ogro

Ler ou não ler?

No Jardim do Ogro não vai agradar todo mundo. Acho que ganhar o público não foi a intenção da autora quando resolveu escrever o livro. A história não possui o mesmo apelo de Canção de Ninar, seja por ausência de mistério, falta de um grande e aguardado acontecimento (no caso de Canção de Ninar, um assassinato) ou insipidez dos personagens.

Esse não é “o” livro – nem da vida e nem dentre os trabalhos de Slimani. Por outro lado, é interessante ver como a narrativa se desenrola. A história muda completamente lá pelo fim. Para quem começou refém dos seus próprios desejos, Adèle termina aprisionada de outras maneiras.

Esperando seu marido sair do banheiro, ela desdobra um papel e começa uma lista. Coisas a fazer, a recuperar, sobretudo. Ela tem as ideias claras. Vai limpar o cotidiano, livrar-se, uma por uma, de suas angústias. Vai cumprir seu dever.

Avaliação: 3 de 5.
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