Minha experiência com os livros de Mário de Andrade

Finalizei há poucos dias o quarto e último livro do box contendo as principais obras de Mário de Andrade, um dos nomes de destaque da Semana de Arte Moderna de 1922. Achei que seria uma boa oportunidade de obter familiaridade com o trabalho do escritor e decidir, de uma vez por todas, se sigo lendo mais coisas dele.

A edição da Novo Século reúne Macunaíma, Amar, Verbo Intransitivo, Pauliceia Desvairada e Contos Novos, quatro títulos muito diferentes entre si, mas com elementos comuns que Mário de Andrade adorava usar no desenvolvimento de suas histórias.

Ilustração de Mário de Andrade

Um deles é a língua estrangeira, presente principalmente em Atrás da Catedral de Ruão, um dos Contos Novos, e dentro dos poemas de Pauliceia Desvairada. O mais engraçado aqui é que adquiri opiniões completamente distintas sobre as duas obras.

Página do conto Atrás da Catedral de Ruão

Da primeira, gostei muito. Foi o último livro do autor que li e achei que, dentre todos, entrega uma dinâmica maior e se mostra menos enfadonho. Com Pauliceia Desvairada, tive muita dificuldade em entender os versos e as referências do poeta, o que tornou a experiência muito mais desagradável e desgastante.

Mário de Andrade tinha uma mente fantástica, isso fica claro em seus trabalhos. Sua bagagem intelectual endossa a narrativa, mas também chega a ser muito limitante em certos momentos. Lendo os poemas dele, especialmente o “prefácio interessantíssimo”, percebi que suas palavras são dirigidas a um seleto grupo do qual infelizmente (ou felizmente) não faço parte.

Isso me deixou pensativa. Teria o autor sido irônico ou era a sua simples maneira de expressar as ideias e rebater as críticas? A linguagem utilizada por Mário de Andrade ultrapassa o “culto” – achei elitista. Mas, se pararmos para pensar, veremos que isso não é realmente uma grande surpresa, dada a época em que o prefácio foi escrito.

Poema Noturno, que compõe Pauliceia Desvairada

Deixando de lado o fracasso de Pauliceia Desvairada, sobrou falar de Macunaíma e Amar, Verbo Intransitivo. Considero os dois livros as maiores obras do escritor. Macunaíma é emblemático por apresentar um personagem desimpedido; bem irritante, mas engraçado. Já Amar, Verbo Intransitivo revela as transformações de uma cidade urbana, cada vez mais influenciada pelos costumes afora.

Reconheço as qualidades de ambas as histórias. Porém, não posso deixar de lado o desinteresse que tive pela prosa, muitas vezes cansativa, e pelo destino dos personagens. Em resumo, gostei muito de conhecer a escrita de um dos nomes mais marcantes da literatura brasileira, mas não creio que voltarei a ler alguma coisa do autor tão cedo. Tenho outros nomes nacionais favoritos, e prefiro apostar por enquanto na segurança do que me é familiar a tentar encontrar a “obra perfeita” de Mário de Andrade.

6 indicações de livros que não fizeram sucesso entre os leitores brasileiros

Estava pensando em possíveis pautas e notei que tenho algumas sugestões de livros pouco conhecidos para recomendar. Alguns deles eu comprei totalmente na impulsividade, pelo desconto ou pela capa. Outros foram obras que me interessaram e definitivamente não me decepcionaram.

1. Licor de Dente-de-Leão, de Ray Bradbury

A maioria deve associar o autor a Fahrenheit 451 – um livro que não li, porém, tenho muito interesse em conhecer. Meu primeiro contato com o trabalho de Bradbury, no entanto, não poderia ter sido mais aleatório.

Licor de Dente-de-Leão, romance leve e bem escrito por Ray Bradbury

Encontrei um exemplar usado de Licor de Dente-de-Leão em perfeito estado e por um preço acessível. Confesso que não esperava muita coisa, o que com certeza ajudou a tornar toda a minha experiência de leitura ainda mais memorável.

Esse romance segue a história de um garoto, Douglas Spaulding, durante o verão de 1928. É um livro singelo, que fala muito sobre descobertas, aventuras e amadurecimento.

2. As Rãs, de Mo Yan

Outra leitura que comecei com baixíssimas expectativas e fui totalmente surpreendida. É o primeiro livro que me vem à mente quando penso em literatura asiática.

A escrita afiada e a carga pesada da narrativa não se dão por acaso: Mo Yan usa o que existe de mais visceral para retratar o caos na China durante o período de implementação da política de filho único.

3. Nada, de Janne Teller

Um dos livros mais difíceis que li na vida, e não posso botar a culpa no volume (a obra só tem 128 páginas).

Nada é horrível, mas brilhante. Seu conteúdo, além de ser totalmente levado pelo negativismo, é tão chocante que chega a perturbar até mesmo os leitores mais corajosos.

A trama se desenrola e vira uma bola de neve tão grande que tudo fica surreal demais – até mesmo para uma ficção.

Deixo minha indicação sobre Nada, mas faço um alerta para o conteúdo sensível.

4. A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao, de Junot Díaz

A obra de Junot Díaz ganhou o Pulitzer de ficção em 2008

O que mais me chamou atenção neste livro foi que venceu o Pulitzer na categoria de ficção. Confesso que não vejo nada de mais nele, mas definitivamente não fiquei desapontada com a minha compra.

Acompanhamos uma vida aparentemente comum, marcada por inseguranças, desejos e (poucas) realizações. Particularmente, acho que esta “falta de extravagância” é o ponto alto do livro, pois nos mostra que a vida mais breve é também uma vida completa à sua própria maneira.

5. Amanhã Você Vai Entender, de Rebecca Stead

Este é um dos livros mais antigos da minha estante. Eu o adquiri quando ainda estava começando a minha coleção, e por isso tenho muitas memórias boas dele.

Um dos capítulos de Amanhã Você Vai Entender

Apesar do apego, garanto que a história é boa! Ela deve se enquadrar na categoria infanto-juvenil, mas acredito que todos nós podemos tirar uma boa reflexão da obra – ou apenas se emocionar com o fim.

6. A Idade dos Milagres, de Karen Thompson Walker

Vi que um novo livro da autora foi publicado no Brasil pela TAG Inéditos e lembrei que havia lido A Idade dos Milagres.

A obra nos fornece um panorama amedrontador: e se os dias ficassem mais longos? E se trocássemos a noite pelo dia e o dia pela noite? Como isso nos afetaria? E os animais? E a gravidade?

Capa de A Idade dos Milagres, um livro reflexivo sobre as consequências (ainda que ficcionais) de não cuidar do meio ambiente

A proposta é ambiciosa, pois não se trata apenas de uma crítica às mudanças climáticas; é a maneira como isso pode – e está – afetando o mundo. Talvez não cheguemos ao extremo, mas definitivamente carregaremos consequências físicas e emocionais pela nossa relação descuidada com o meio ambiente.

A Idade dos Milagres traz bastante informação para debater. Embora perca um pouco do senso crítico com a narração, ainda me parece uma aposta segura.

Intérprete de Males, de Jhumpa Lahiri

Sempre que me deparo com um livro extraordinário, principalmente quando ele não é muito conhecido, finalizo a leitura exaltada. Como mais pessoas não leram isso, eu me pergunto. Na maioria das vezes, termino sem resposta.

Intérprete de Males é um caso diferente. Tenho palpites sobre sua baixa fama no país. Embora premiado, o livro não tem apelo. Ouso dizer que seu principal desafio está em passar pelo gosto do público brasileiro, que dá maior preferência por histórias norte-americanas e europeias.

Podemos mudar isso? Talvez. Com Intérprete de Males, definitivamente tentarei.

A obra de Jhumpa Lahiri é composta por nove contos, todos eles muito simples, mas fascinantes a suas próprias maneiras.

A autora mantém a qualidade da narrativa conforme termina uma história e começa outra. Os temas poderiam ser resumidos ao que existe de mais comum e familiar no cotidiano, passando por crises de relacionamento, favores entre amigos e laços de sangue, se não fossem pelas transformações da narrativa e pelo bom trabalho de desenvolvimento dos personagens.

Choque de culturas

É com muita segurança e maturidade que Lahiri traz à tona discussões relevantes para o mundo atual, desde imigração até a ignorância não intencional sobre a cultura e as crenças do próximo.

Em A Senhora Sen e O Terceiro e Último Continente, vemos o processo de adaptação de pessoas que se arriscam em viver em terras estrangeiras por uma chance de prosperar.

Já em Quando o Senhor Pirzada Vinha Jantar, de longe meu conto preferido da obra, parte da história de transformação da Índia é abordada. Sob a perspectiva de uma criança, presenciamos a tristeza e a solidão de uma pessoa diretamente afetada por tumultos de um país que até hoje testemunha conflitos políticos e sociais.

Difícil não se emocionar com o temor dos personagens em relação à segurança dos entes queridos, ou até mesmo com a sensação de desamparo por não conseguirem fazer nada estando longe, a continentes de distância.

A autora Jhumpa Lahiri. Ela escreveu Aguapés e O Xará também

Riquezas da Índia

Intérpretes de Males é realmente uma montanha russa de emoções conflitantes. Muitos de seus contos transmitem uma sensação de desconforto, ou até pesar pelas histórias de vida mais complicadas.

Mas uma quebra interessante do peso da narrativa são os elementos culturais, que se mostram mais ricos do que imaginávamos. Lahiri é direta ao mencionar os costumes dos indianos e não economiza para falar da gastronomia da região, passando pelos temperos picantes aos aromas fortes e completos.

Ler ou não ler?

Se eu recomendo este livro? Com toda certeza! Além de ser uma ótima leitura para quem deseja diversificar seu acervo pessoal, as histórias escritas por Lahiri são muito bem desenvolvidas. A simplicidade da trama, somada às experiências de quem ouviu e presenciou as maravilhas e as dores de um mundo estrangeiro, é o que sustenta Intérprete de Males e o torna tão singular.

Enquanto os astronautas, heróis eternos, passaram algumas horas na Lua, eu permaneci neste novo mundo por quase trinta anos. Sei que minha conquista é bastante comum. Não sou o único homem a procurar fortuna longe de casa e certamente não sou o primeiro. Mesmo assim, há momentos em que me assombro com cada quilômetro que viajei, cada refeição que comi, cada pessoa que conheci, cada quarto em que dormi. Por comum que pareça, há momentos em que tudo fica além da minha imaginação.

Avaliação: 5 de 5.

4 razões para ler A Trilogia de Nova York

E foi assim, sorrateiramente, que o bendito do Paul Auster entrou na minha vida literária. Comprei um livro usado de Viagens no Scriptorium e fiquei tão fascinada com a escrita e o enredo aberto que fui caçar um exemplar de uma de suas obras mais aclamadas: A Trilogia de Nova York.

A história é tudo o que você pode esperar do autor, embora eu não imaginasse que fosse encontrar uma narrativa tão densa. Mais do que um livro sobre detetives, deparamo-nos com reflexões e dilemas envolvendo a vida, bem como as ações que adotamos e os remorsos que alimentamos a cada erro que cometemos.

Listei quatro motivos para dar uma chance à série de romances. Embora não seja uma leitura fácil, vejo razão para indicar, principalmente por conta da evolução dos personagens.

1. Investigação

Capa de Cidade de Vidro, primeiro volume da trilogia

Já contei que existe detetive envolvido, mas não é bem assim. Nosso protagonista em Cidade de Vidro é, na verdade, um escritor de romances policiais. Quando recebe uma ligação confundindo-o com outra pessoa, ele decide embarcar em uma aventura investigativa que poderá servir de inspiração para a sua próxima história.

Conforme o escritor (o personagem, não o autor) descobre novas pistas, ele se vê cada vez mais dominado pelo caso – a ponto de terminar a investigação se sentindo uma pessoa completamente diferente do início da jornada.

Parte de trás de A Trilogia de Nova York, com o mapa do Central Park

2. Histórias interligadas

Dizer que as histórias são interligadas parece meio óbvio, já que se trata de uma trilogia. Com Auster, no entanto, as coisas costumam ser um pouco mais complicadas.

O mais legal da obra é a maneira como o autor decide conduzir a trama, pois nada nos é entregue logo de cara. É tudo no tempo dele, que consegue ser tão minucioso e intencional com cenários e ações que chega a mexer com nossa memória. A gente tende a esquecer de personagens do primeiro volume apenas para que possam ressurgir no ápice do enredo, munidos do fator surpresa.

3. Autor-personagem

Esta é uma das características mais legais d’A Trilogia de Nova York: o autor vira um personagem! Acho que somos sempre surpreendidos quando isso acontece, mas senti uma intenção diferente por parte de Auster.

Orelha com (brevíssimas) informações sobre o autor

O autor é o que ele escreve, certo? Não neste caso. O Paul Auster da história é tão distinto do Paul Auster escritor – ou, pelo menos, de como imagino que Paul Auster seja – que me senti na presença de um pilantra.

4. Reviravolta

Um livro de suspense precisa ter uma reviravolta que faça o leitor perder a cabeça pelos momentos finais.

A Trilogia de Nova York nos entrega um desfecho tão mirabolante que é até confuso. Mas poderíamos esperar menos de um livro do escritor?

O Quarto Fechado, volume que encerra o livro

Gosto do ar de desafio que cada obra do Auster carrega. Esta leitura não poderia terminar de outro jeito. Densas e provocativas, as últimas páginas entregam a resposta, mas deixam a marca registrada de qualquer livro dele: a dos desfechos abertos.

Onde Estivestes de Noite, de Clarice Lispector

Mais um livro de contos da Clarice Lispector concluído, e posso dizer que Onde Estivestes de Noite é a minha maior indicação até agora – tirando meu eterno favorito A Hora da Estrela. Nesta leitura, entrei em contato com novas camadas de escrita da autora, mais bonitas, íntimas e, devo dizer, até mais complexas.

Liberdade

Dividida em 17 de contos, a obra irá abordar as relações “do eu e do outro”. Lispector faz questão de falar sobre “o meio”, esse caminho turbulento que liga a vida e a morte, de uma maneira que só ela sabe fazer, usando a sutileza e o encanto das palavras para expressar emoções universais.

A autora nos expõe os males e os benefícios dos relacionamentos que cultivamos ao longo de nossas existências, as ânsias estendidas pelos anos e a eterna busca em tentar supri-las.

Em muitas dessas histórias, vemos a evolução dos personagens sobre seus medos e a subsequente sensação de liberdade adquirida.

O conto A Partida do Trem é um dos que mais exploram esse desenlaço de amarras invisíveis. Foi o meu predileto, por sinal. Eu, que estive tão acostumada com o lado trágico dos textos de Lispector.

O segundo conto do livro, A Partida no Trem

Transformações da noite

Onde Estivestes de Noite é um encontro de personalidades da autora. Falei sobre a emancipação de protagonistas, mas temas mais redundantes, como tormento e solidão, também aparecem em algumas passagens.

É até interessante perceber os experimentos do livro, quando o êxtase do momento se alia ao macabro – como ocorre no conto que dá nome à obra. E como o tom muda rapidamente para uma espécie de apatia, visto em Silêncio, e tristeza, feito Esvaziamento.

Onde Estivestes de Noite tem todas as fases de uma noite cheia, desde a euforia até a quietude dos primeiros minutos da manhã.

Referências

É a primeira vez que vejo a escritora se referindo a colegas de ofício em seu trabalho. Isso claramente me chamou a atenção e não tinha como deixar passar.

Você irá encontrar um bilhete endereçado a Érico Veríssimo. Foram com poucas palavras que Lispector o fez ainda mais eterno:

“Não concordo com você que disse: ‘Desculpem, mas não sou profundo.’
Você é profundamente humano – e que mais se pode querer de uma pessoa? Você tem grandeza de espírito. Um beijo para você, Érico.”

A autora também mencionou Nelson Rodrigues, um dos nomes que moldaram o teatro brasileiro – e um dos meus escritores nacionais favoritos também.

Ler ou não ler?

Recomendar qualquer livro de Lispector é uma tarefa complicada, pois sei que requer muita paciência para entender sua produção artística. E nem sempre terminamos por compreender suas intenções.

O que posso dizer é que vale a pena o risco de encarar uma leitura complexa e potente. Um lado positivo da obra é a sua grande margem para interpretação. Onde Estivestes de Noite consegue ser o que você quiser que seja: um passatempo, uma experiência, um apoio. Ele foi escrito para todos os humores.

Eduardo a transformara: fizera-a ter olhos para dentro. Mas agora ela via para fora. Via através da janela os seios da terra, em montanhas. Existem passarinhos, Eduardo! existem nuvens, Eduardo! existe um mundo de cavalos e cavalas e vacas, Eduardo, e quando eu era uma menina cavalgava em corrida num cavalo nu, sem sela! Eu estou fugindo do meu suicídio, Eduardo. Desculpe, Eduardo, mas não quero morrer. Quero ser fresca e rara como uma romã.

Avaliação: 4 de 5.

Fique Comigo, de Ayòbámi Adébáyò

Eu não estava muito certa se sairia uma resenha deste livro. Até a metade dele, me pareceu difícil descrever o que é a história e qual é o seu propósito para quem decide dar uma chance a ela. Demorou um pouco, mas percebi que Ayòbámi Adébáyò levantou inúmeras questões que podemos discutir – talvez até mais do que me permitirei dizer hoje.

Fique Comigo é um teste de paciência. Você tem a sinopse, os personagens e a localização, mas não entende muito bem onde a autora quer chegar nos primeiros capítulos. Sabendo esperar, você descobre, por meio da narradora Yejide, as belezas e as dores do casamento e da maternidade.

Poligamia

A história se passa na Nigéria, e seguimos Yejide e seu marido, Akin. Os dois estão há meses tentando engravidar, mas o nascimento de um filho parece um evento distante de acontecer. Quando parentes sugerem – não, obrigam – que o casal aceite uma nova esposa em casa, a relação é abalada a ponto de nem mesmo o mais forte dos elos conseguir segurar o afeto e o respeito entre duas pessoas que se amam.

A poligamia é um dos primeiros assuntos apresentados ao leitor, mas não é o único. Eu diria que não é nem o principal, embora a sinopse venda o livro como se fosse. A inserção de uma terceira pessoa no relacionamento entre Yejide e Akin serve apenas de catalisador ao que está por vir.

Parte um de Fique Comigo. O livro possui quatro divisões

A chegada de Funmi acaba acionando um alarme em Yejide, desenterrando traumas antigos de sua infância e agravando suas inseguranças em relação ao marido. Diferentemente da “tradição” familiar, a poligamia não é uma opção para a personagem, mesmo quando a sua imagem é ameaçada.

Yejide viu como é ser excluída depois que a mãe morreu, sentiu na pele a rivalidade existente entre as esposas do pai e, quando percebeu que seu lugar estava sendo disputado, decidiu se fechar para o mundo – inclusive para Akin.

Anos 80

Embora não seja o foco do livro, é importante destacar o contexto político e social descrito por Adébáyò. De maneira tímida, a autora nos apresenta um capítulo conturbado da Nigéria. Percebemos que o país estava mergulhado em um período de transformações que nem mesmo a população entendia bem. O estranhamento é sentido quando o assunto surge em algum momento da obra, e a sensação de medo e insegurança nos permite ter uma noção do clima da época.

Título

A sensação de perceber que você entendeu o título de um livro é muito boa. Achei que fosse óbvio em Fique Comigo, mas acabei me enganando. E quando percebi o verdadeiro significado dessas duas simples palavras para a história, foi como se a grandeza do livro, antes escondida, tivesse finalmente se mostrado para o mundo – ou, pelo menos, para o meu mundinho pequeno de apartamento.

Fique Comigo é um pedido que Yejide faz a Akin. Mas não só a ele. É o seu voto mais desesperador, a prece de uma pessoa que sempre ansiou em ser mãe, e já estava a ponto de entregar os pontos quando viu que “manter” era muito mais difícil do que “conseguir”.

Foto da autora Ayòbámi Adébáyò

O livro me deixou uma marca incômoda que aceitei sem pensar duas vezes. Obrigou-me a enxergar a fragilidade das coisas, a perceber que tudo é muito mais complexo do que parece. Nossas escolhas não se resumem sempre a apenas dois lados, e nem mesmo uma relação sólida está imune ao fim que mágoas maiores podem trazer.

Ler ou não ler?

Poderia ser apenas mais uma leitura mediana, só que não é. Sabendo esperar, garanto que a história chegará até você, seja por meio da identificação ou da empatia.

O desfecho chega a ser um pouco forçado, mas dá para se emocionar mesmo assim. Pense na Yejide e em sua trajetória de sofrimento. Imagine-a dizendo “fique comigo”. Essa é a visão do livro que carregarei.

As razões pelas quais fazemos as coisas que fazemos nem sempre serão lembradas. Às vezes, acho que temos filhos porque queremos deixar alguém que possa explicar ao mundo quem éramos depois que morremos.

Avaliação: 4 de 5.

Ontem e hoje

Hoje continua sendo
um vislumbre melhorado
de ontem, e digo que esta vida
nunca viu tempos mais amenos
É por isso que escrevo,
é um caos que venho mantendo,
e temo, por isso
finjo que não vejo

Ontem foi uma
cópia piorada de hoje, mas esta vida
já presenciou horas mais violentas
É por isso que
nunca converso,
é o silêncio que venho preservando,
e eu gosto, por isso
me faço de muda
Nunca fui de chegar contando

Os dias anteriores
Os dias posteriores
Ontem e hoje
pertencem a uma estação estagnada
Por isso sempre escrevo,
por isso nunca converso

Eu sinto que ontem e hoje
são tudo o que mereço,
e dia após dia
vou me reinventando.

Meus livros favoritos de cada gênero

O post de hoje está enorme, mas acho que valerá a pena.

Eu nunca parei para pensar direito nos gêneros que costumo ler, o que dirá escolher um livro favorito para cada categoria. Consigo imaginar quatro ou cinco obras preferidas da vida, e só. Talvez agora eu passe a ter uma ideia mais clara das minhas leituras e do que venho mantendo ultimamente na estante.

A ideia original é da Reniére Pimentel, do canal Palavras Radioativas. Optei por tirar alguns gêneros que ela escolheu e inserir outros, moldando conforme eu preferia. Acabei selecionando 11 categorias.

Romance

Decidi deixar apenas um item para romance porque não costumo ler muitos livros do gênero, embora muitos títulos se encaixariam nesta categoria. Considerei as obras de caráter predominantemente românticas para extrair uma indicação. Acabei escolhendo Filha da Fortuna, da Isabel Allende.

A escrita da autora chilena é riquíssima, e a história em Filha da Fortuna segue a mesma qualidade de A Casa dos Espíritos. Além da trama amorosa, temos um panorama surpreendente da Califórnia do século XIX, quando a descoberta do ouro fez com que muitos migrassem para a região com o sonho de ter uma vida melhor.

Clássico

O Morro dos Ventos Uivantes, único romance escrito por Emily Brontë

Não tem outro livro, é O Morro dos Ventos Uivantes. Sou completamente apaixonada pela história de Emily Brontë e sempre serei.

Mais do que o romance em si, acredito que este clássico fala muito sobre as emoções humanas. Heathcliff torna-se detestável, mas entendemos de onde vem o ódio e o gosto pela vingança. Cathy fica mimada, porém, foi a única que se importou com Heathcliff desde o começo. Temos nesta obra personagens que amamos e odiamos ao mesmo tempo, e essa complexidade é uma das características de que mais gosto em uma leitura.

Young Adult

Nesta categoria, indicarei dois livros, embora um esteja comigo há mais tempo e, por isso, penso mais nele quando alguém me pede uma sugestão.

As Vantagens de Ser Invisível terá sempre um espaço reservado na minha estante. A história nunca envelhece, não fica ensossa. Gosto das cartas que Charlie escreve e sinto que elas vêm de um amigo.

Fangirl tem uma protagonista com uma personalidade parecidíssima com a minha. Gostei muito de acompanhar a evolução social da Cath e sua dedicação pela escrita.

Fantasia

Página de Muse of Nightmares, segundo volume da duologia Strange the Dreamer

Por anos, a fantasia foi meu porto seguro no mundo da literatura. Por mais que eu não leia tanto o gênero como antes, sempre terei lembranças maravilhosas dos variados mundos que encontrei pelo caminho.

Os livros da Laini Taylor são únicos, e por isso indico sem pensar duas vezes. Eles não caíram no gosto dos brasileiros, mas lá fora são um sucesso. A duologia mais recente da autora, Strange the Dreamer e Muse of Nightmares, é de uma criatividade única!

Distopia

Publicado em 1962, Laranja Mecânica explora a cultura da violência em um mundo futurístico

Li minha cota de distopias na vida, mas sei que não cheguei nem perto de descobrir o suficiente. Por ora, escolho Laranja Mecânica para representar esta categoria. Sei que o livro divide opiniões, e entendo o porquê. Só que minha experiência de leitura foi arrebatadora. As descrições me aterrorizaram de uma forma que não consigo explicar. É uma obra fantástica!

Ficção científica

Eu preciso ler mais ficção científica. Acabei de perceber que não tenho tantas recomendações quanto imaginava. Mas aqui vai uma boa: O Guia do Mochileiro das Galáxias. A trilogia de cinco mais divertida, sarcástica e confusa que você provavelmente encontrará.

Terror

Outro gênero pouco explorado, mas que tem um representante de peso na minha estante.

Demorei muito para conseguir fazer render a leitura de Drácula. Cheguei até a largar o livro por um tempo. Quando voltei a lê-lo, foi para nunca mais esquecer da trama.

Mistério

Mais um gênero limitado para mim. Não sou muito fã de thrillers ou de livros de suspense, mas o trabalho da Agatha Christie é maravilhosos mesmo! Sempre suspeito, mas nunca tenho certeza do assassino da história. Até agora, Morte no Nilo é o meu preferido.

Não-ficção

Os livros de não-ficção tornaram-se leituras mais corriqueiras na minha vida. Escolhendo os assuntos certos, aprendi a gostar do gênero.

Alguns dos meus títulos favoritos: Os Diários de Sylvia Plath, As Boas Mulheres da China, Manson e O Anjo Pornográfico e Vozes de Tchernóbil.

Poesia

Capa de Sentimento do Mundo, um dos livros de poesia mais conhecidos de Carlos Drummond de Andrade

Não tinha como não colocar poesia. Fica um pouco difícil de escolher um livro, pois li muita coisa solta. Mas, analisando o todo, sei que minha primeira indicação é, com certeza, Sentimento do Mundo. Alguns dos meus poemas preferidos estão nesta obra.

Infanto-juvenil

Decidi incluir esta categoria porque acho que podemos aprender muito com alguns livros do gênero. Adoro ler histórias com protagonistas crianças; elas são tão mais dinâmicas e cativantes!

Minha Vida Fora dos Trilhos e Claros Sinais de Loucura estão entre minhas indicações. Coraline também, para quem gosta de uma trama mais sombria.

Entrando em um novo território com Nimona

Uma das minhas metas para 2020 é encarar novos desafios do mundo literário. Eu achava que não existia mais o que explorar, dado o meu gosto eclético por livros, mas me dei conta de que o limite está, na realidade, mais distante do que pensei.

O livro de hoje se chama Nimona, da cartunista norte-americana Noelle Stevenson. Apesar de não ter sido uma experiência cinco estrelas, a leitura definitivamente me marcou por ter aberto a minha mente – e o meu coração – para os quadrinhos.

Primeira página de Nimona

Seguimos ao longo da HQ a história de Nimona, uma metamorfa com o sonho de se aliar ao Lorde Ballister Coração-Negro, famoso vilão com vastos conhecimentos científicos. Após descobrirem que as intenções da Instituição não são tão boas assim, a dupla bola um plano para evitar que consequências graves atinjam o reino. Para isso, eles precisam enfrentar as autoridades e o herói Sir Ambrosius Ouropelvis, com quem Coração-Negro mantém uma antiga rivalidade.

Acredito que, quando se trata de quadrinhos, o visual é a primeira coisa que nos chama a atenção. O traço de Stevenson me agradou bastante, pois não segue uma linha muito “quadrada”. São as cores, no entanto, que dão o toque final ao livro. Senti que a ilustradora usou tons predominantemente terrosos, o que permitiu que cores mais vibrantes, como o verde das explosões, se destacassem nas horas certas.

Nimona contando a história sobre como se transformou em metamorfa

A trama, por sua vez, é simples. Cai um pouco na fórmula pronta das histórias com heróis e vilões, em que os membros da segunda categoria são motivados por um passado marcado por traumas, rejeições e decepções.

Uma página humorada da HQ

O mais interessante está no jogo de pingue-pongue entre Bem e Mal que Stevenson explora, e como as coisas são mais complicadas do que imaginamos. A HQ levanta perguntas bastante pertinentes: o que faz uma pessoa má ser má? Ela não pode ter momentos de bondade, dependendo da situação em que se encontra? Afinal, quais são os critérios de classificação para um ato bom e um ato ruim?

Momentos finais do livro

No geral, o livro entrega o que promete: uma leitura leve e divertida, por vezes até emocionante. Também acho que certos elementos da história, como o passado de Nimona, foram superficialmente explorados e podem valer um segundo volume. Será que sai? Fico na torcida!

Ilustrações adicionais mostrando o desenvolvimento de Nimona

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