Minhas melhores leituras do ano (até agora)

Não vou nem tentar comentar sobre todos os livros que li durante essa pausa nada breve, porque… Bem, acho que perderia um pedacinho da minha sanidade mental. 2021 está sendo um ano de poucas leituras em comparação com 2020, mas minha lista já acumula mais de 30 livros lidos.

Decidi então separar as melhores leituras que fiz neste período. Confesso que os quatro livros que selecionei me deixam com um misto de sentimentos contraditórios. São histórias incríveis e recomendo cada uma delas. No entanto, nenhuma foi cinco estrelas.

Há tempos me falta um livro que me deixe realmente animada. Estaria eu mais exigente ou passando por um descasamento com a literatura? De qualquer maneira, nenhuma das duas opções me conforta, e estou torcendo para virar o jogo até o fim do ano.

Enquanto não me aparece o livro, vamos conversar sobre aqueles que deram as caras por aqui e acrescentaram aprendizados valiosos na minha vida (um em especial fez o contrário: tirou algo de mim):

1. Nix, de Nathan Hill

Minha intenção era fazer um diário de leitura desse livro. Estou arrependida de ter deixado passar, pois teria muita coisa legal para comentar sobre ele. Li no início do ano, então pode ser que os acontecimentos não estejam bem alinhados em minha cabeça. Mas tudo bem, pois Nix é uma salada mista de linhas temporais e diferentes tipos de narrativa.

Não se intimide pelo tamanho do livro. Ele é grande, mas a história é boa demais para te deixar cansado com a infinidade de páginas. Elas passam, e passam rápido.

Posso descrever Nix como um drama familiar, mas resumi-lo a isso seria deixar de lado todas as pessoas, os traumas e as paixões da vida de Samuel Anderson, o protagonista.

Acho intrigante como livros semelhantes a Nix parecem mundanos demais e ainda assim nos cativam. Nix me fez pensar que até a história de vida mais simples é complexa e intrincada como um vitral bem trabalhado.

2. Born a Crime, de Trevor Noah

Trecho marcado de Born a Crime

Acho que já devo ter falado por aqui que não sou muito próxima a livros de não ficção. Da mesma forma que algumas pessoas têm dificuldade de imergir em mundos inexistentes (ou mágicos, como preferir), o problema da não ficção para mim está na característica de parecer muito monótona.

Born a Crime quebrou todas as barreiras que ainda existiam entre os livros de memórias e eu.

Achei engraçado (como já era de se esperar de um livro escrito por um comediante), mas comovente. Achei potente também. É curioso como achamos que conseguimos resumir algo tão complexo e cheio de complicações como o Apartheid. O Apartheid não termina logo na primeira frase. O Apartheid é carregado por anos, décadas, vidas inteiras. Basta ver como a segregação racial fez parte da infância do autor, que, felizmente, mantém vivo o debate sobre os reflexos do regime na África do Sul e no mundo.

Entendo agora por que Born a Crime conseguiu criar o burburinho que criou quando chegou no Brasil pela TAG Livros.

3. Pachinko

Capa de Pachinko com blurbs

Pachinko é exatamente o tipo de história que você acha que vai encontrar em um livro bom. Bem escrita e estruturada, a história acompanha gerações de uma família coreana que se vê refém da violência e do preconceito da dominação japonesa no início dos anos 1900.

Pachinko é um livro belo demais para ser resumido em poucas palavras. Ele vai falar de coisas boas, como amor, companheirismo e identidade, mas carrega a mancha do contexto histórico de guerra e opressão do século passado no Leste Asiático.

Como eu, você vai se encantar pelos personagens trabalhados por Min Jin Lee. O que não faltou foi desafio para o imigrante coreano da época, que saiu de um país irreconhecível pela dominação para outro ainda mais estranho, onde a discriminação e a exclusão nem eram disfarçadas.

4. Herdeiras do Mar

Herdeiras do Mar me quebrou. Quando penso em toda a raiva e tristeza que passei lendo este livro, fico até com um pé atrás para recomendá-lo. Mas recomendo, pois é uma história importante. É um lembrete de um passado sujo. É pela memória de todas as mulheres, adolescentes e crianças (sim, crianças) levadas pelos soldados japoneses para servirem de “damas de conforto” durante a dominação japonesa em países da Ásia – neste caso, a Coreia do Sul.

O livro peca um pouco no drama. No entanto, consegue arrancar facilmente uma reação do leitor. Você vai sentir horror, asco, indignação. Medo, vergonha. Mas esperança também por um desfecho feliz – ou, se não feliz, algo próximo a isso, na medida do possível.

A volta dos que não foram

Olá. Sim, sou eu. Estou viva e passo bem. Viva, mas menos leitora nos últimos tempos – o que para mim é como uma quase morte.

Depois de sete meses de hiato, decidi voltar. Não me lembro do que me fez parar de escrever para o blog. Provavelmente a falta de tempo. Com certeza não foi por falta de vontade.

Sinto que muitas coisas aconteceram de fevereiro para cá, mas também fico com a sensação de que só dei voltas na minha vida. Continuo no mesmo ponto em que parei, com a diferença de que estou lindamente vacinada e acumulei uma pilha de livros para ler.

Talvez isso explique em parte por que deixei “apseudocrítica” de lado por uns meses: não estou lendo – ou, pelo menos, não no ritmo que eu gostaria. E isso está me frustrando.

De fevereiro para cá, li alguns livros que ampliaram minha visão de mundo. Mal posso esperar para falar deles. Tenho ainda muitos livros interessantes na fila. Agora, quero compartilhar minhas impressões em tempo real por aqui.

Minhas postagens voltarão a ser recorrentes? Duvido muito. Mas vou aproveitar essa lufada repentina de ânimo que acabei de reconquistar e falar até onde conseguir sobre minhas leituras – e até mesmo a falta delas.

É bom estar de volta!

Eu, Tituba, de Maryse Condé

Há autores que escrevem para contar, ainda que por meio da ficção, suas histórias mais pessoais. Acho válido, acho bonito. Mas fico feliz em saber que existem aqueles que escrevem para dar vida a quem viveu tão pouco. Maryse Condé se encaixa nessa segunda categoria.

O premiado Eu, Tituba é interessante porque, além de ser um romance com bases históricas, tem um pouco de Condé. Dá para sentir nas entrelinhas que a autora colocou sua dor e a de tantas outras mulheres negras na dor da personagem principal.

Eu, Tituba veio para tentar reparar o que a história tão egoisticamente deixou no esquecimento: a vida de uma figura de quem pouco sabemos. E o que sabemos vem dos registros que a marcaram para sempre com um simples adjetivo: bruxa.

Prefácio de Conceição Evaristo

Não é sobre Salem

Uma das minhas grandes expectativas em relação ao livro era o contexto histórico. Os famosos julgamentos das bruxas de Salem sempre me chamaram a atenção: primeiro pelo horror das perseguições; e segundo porque esse período, por mais grotesco que tenha sido, serve agora de estudo para levantar reflexões e debates sobre a misoginia nas sociedades ao longo dos séculos.

Eu, Tituba passa muito pouco pelos julgamentos do fim do século XVII. As condenações acontecem no livro, mas não da maneira como eu tinha imaginado. Isso acabou me decepcionando um pouco, embora eu entenda agora que Condé nunca teve a intenção de falar de todas as mulheres condenadas à forca. A protagonista é Tituba.

Um passado para Tituba

Tituba foi uma das mulheres condenadas no que ficou conhecido como a maior caça às bruxas da história. Junto de Sarah Osborne e Sarah Good, a escrava virou uma das principais figuras relacionadas aos julgamentos. No entanto, pouco se sabe dela.

Nossa história, do mundo real, falhou com Tituba. Tendo sido escrava, pouco importava para os registros quem era, de onde vinha e o que aconteceu a ela nos momentos que antecederam seu trágico fim.

Condé não aceitou isso e resgatou Tituba. Usando uma linguagem direta e pouco floreada, mas muito bem trabalhada, a autora deu uma história de vida para a mulher, com direito a um passado e a uma trajetória de luta constante que teve início antes mesmo de seu nascimento e terminou somente no dia da sua execução.

A Tituba do livro tem uma grande personalidade; mesmo aprisionada, não abaixa a cabeça. Até nos momentos de fraqueza mostra que tem força. Isso deixa a leitura agridoce, pois, ao mesmo tempo que dói acompanhar todas as desgraças da personagem principal, é emocionante ver que suas crenças são maiores que as adversidades do mundo e a violência do ser humano. Condé pode até ter inventado sua heroína dos sonhos, e há chances de a Tituba real ter tomado decisões e atitudes bem diferentes do que é retratado no livro, mas acho que essa nova versão prevalecerá a partir de agora.

A autora Maryse Condé

Misticismo

Apesar de criar uma nova abordagem (mais humana e menos fantasiosa) sobre o que é ser bruxa, o livro traz uma aura mística muito bem-vinda.

Em muitos momentos, os mortos são o único amparo de Tituba. Eles guiam, aconselham, tiram-na um pouco da esfera da solidão. Estão por toda parte, vivos em memória e espírito até onde as crenças permitem.

Ler ou não ler?

Eu, Tituba é um livro difícil de enfrentar: ele não vai aliviar a violência da escravidão ou assegurar que o desfecho seja menos triste. Sabemos como a história termina.

Mas imagino o propósito da autora de escrever uma “versão inventada dos fatos”, e acho lindo. Condé criou uma história forte, madura e vívida para os leitores. O livro não vai tirar todo o sofrimento pelo qual Tituba passou; isso nada poderá remediar. Porém, eterniza nas páginas seu nome e a liga a um passado, ainda que hipotético, ao qual pode pertencer.

– Não se aflija, Tituba! Você sabe disso, a má sorte é a irmã gêmea do negro! Ela nasce com ele, vai para a cama com ele, contesta o mesmo peito murcho. Ela come o peixe do seu cozido. Ainda assim, o negro resiste! E aqueles que querem vê-lo desaparecer da face da terra estarão sempre lá. Ainda assim, você será a única a sobreviver!

Avaliação: 4 de 5.

6 livros que gostei, mas provavelmente não lerei de novo

Sou uma pessoa de releituras, como já destaquei aqui quando tive oportunidade. O hábito é antigo, veio mais como uma solução que encontrei na época em que eu não podia comprar muitos livros. Hoje, fico feliz de ver que estou movimentando minha coleção e fazendo meu dinheiro render (porque livro é investimento) ao manter essa prática como uma prioridade nas minhas metas.

Mas reparei que alguns livros acabam virando leituras únicas na vida – não que eu já tenha vivido toda a minha vida para confirmar isso; é apenas o bom e velho chute. Os motivos variam, sendo que a releitura pode não acontecer justamente porque o livro é bom.

E isso é possível? Não faz muito sentido. Porém, foi assim que me senti com algumas obras. Valeram pela experiência, mas não me vejo revisitando suas histórias. Compartilho aqui seis exemplos:

1. O Clã dos Magos (e toda a trilogia), de Trudi Canavan

Ganhei o primeiro volume e comecei a ler sem muitas expectativas, até porque todo o burburinho em cima da trilogia já tinha passado há anos. Além disso, histórias sobre escolas de magia não têm muito apelo para mim.

Pois bem, fui surpreendida pelo desenrolar dos acontecimentos. Faltou ação, mas em nenhum momento senti que a leitura estava arrastada, apesar de ser um livro grande. Terminei já em busca dos dois outros volumes.

Deixei de lado porque na época os preços estavam meio salgados. E fui deixando de lado, até perder a vontade de seguir com a série.

2. Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce

Aproveitei que o livro estava em promoção e comprei. Confesso que a sinopse não me agradou de cara – a impressão que eu tive foi que Retrato do Artista Quando Jovem ia ser mais um clássico arrastado, embora muito elogiado.

O livro me lembrou O Ateneu. Mas O Ateneu que deu certo. Gostei muito do personagem principal. Gostei mais ainda de acompanhar suas mudanças. Não é uma leitura de fortes emoções, mas consegue alimentar o interesse do leitor.

3. Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf

Eu arriscaria dizer que Virginia Woolf é minha kryptonita. Quero muito gostar das obras dela, mas acho tudo muito difícil de absorver. É um fluxo de consciência tão grande que te deixa acuado.

Mrs. Dalloway me confundiu nas primeiras páginas. Felizmente, superei o estranhamento inicial e acabei gostando bastante do livro. Porém, foi uma leitura para ser vivida apenas uma vez. Prefiro lançar meus esforços de concentração em outros livros da autora.

Sinopse de Grandes Esperanças

4. Grandes Esperanças, de Charles Dickens

As coisas mudam um pouco com Grandes Esperanças. Tive altos e baixos lendo o livro; mais altos do que baixos, por sorte. É uma obra extensa, com muitas idas e vindas que tornaram partes da leitura arrastadas. Ainda assim, sendo um clássico, acho que recomendaria para todo mundo.

Aproveito para mencionar Os Maias, do Eça de Queirós. Digo a mesma coisa sobre ele: poderia ser mais enxuto e menos enrolado no desenvolvimento. Gostei do resultado final, mas não devo ler o livro novamente.

5. Anna Kariênina, de Liev Tolstói

Se não me engano, Anna Kariênina foi minha primeira experiência lendo um autor russo. Batendo o olho, parece um calhamaço bem intimidante, mas é só fachada.

A escrita é simples, o que contribui para a fluidez da leitura. Lembro que terminei o livro em pouco tempo, arrebatada pelo desfecho, ainda que eu já soubesse o que iria acontecer.

Não me recordo de ter lido mais de literatura russa depois desse livro, mas posso dizer que a obra de Tolstói me deixou ainda mais curiosa para ler outros autores.

Fiquei um pouco arrependida de não ter comprado uma edição física de Anna Kariênina. Para os próximos, vou caçar promoções.

6. On the Road, de Jack Kerouac

Meu primeiro livro de Jack Kerouac. E eu amei!

Não digo que a leitura é fácil. Há “blocões” de texto que podem intimidar muitos leitores. Além disso, os acontecimentos ocorrem de maneira tão desgovernada que fica fácil se perder no meio da narrativa, o que explica por que não pretendo reler a obra.

Mas o livro é maravilhoso! Em muitos momentos, senti-me tão livre quanto os personagens e me vi inserida na maioria das confusões. Não sei o que há em On the Road, porém, sempre imagino um carro cruzando um deserto ensolarado e seco, com a música do rádio no último volume.

No Jardim do Ogro, de Leïla Slimani

Quando começo a formar uma imagem do livro No Jardim do Ogro na minha cabeça, Canção de Ninar acaba ofuscando o irmão mais velho. Quando penso em falar sobre o que achei de No Jardim do Ogro, as passagens mais marcantes de Canção de Ninar inundam meus pensamentos.

Acho que isso é esperado de qualquer leitor que acaba consumindo mais de um livro do mesmo autor. No caso da Leïla Slimani, especialmente, é importante colocar suas duas únicas obras publicadas no Brasil lado a lado e apontar um favorito. Porque, para ser bem honesta, não vale a pena ler todos.

Isso não quer dizer que não gostei desse segundo livro. Apenas notei que certos assuntos abordados nele são parecidos com o que vi em Canção de Ninar. Até mesmo a atmosfera parece familiar, embora cada um tenha suas respectivas temáticas centrais.

Epígrafe do livro

Insaciável

No Jardim do Ogro é sobre Adèle, uma jornalista que vive em Paris com o marido e o filho pequeno. Ela não ama seu trabalho, mas o tem como um passatempo. Ela ama seu marido, mas não liga para o casamento. E o papel de mãe, apesar de ser gratificante, custa tempo e esforço.

Por trás do tédio da sua rotina, Adèle sente uma necessidade insaciável por sexo. Ela desmarca compromissos e mente para o marido para aplacar o vício em idas a bares à noite e encontros marcados com antigos contatos. Adèle segue uma vida dupla, até que é descoberta.

O livro poderia ser apenas sobre os impulsos sexuais de uma pessoa, mas, como em Canção de Ninar, existem camadas de interpretação. Há sempre a possibilidade de a história ser somente o que está na sinopse, porém, quero acreditar que a autora quis ir além – além dos vícios, além da tentação.

Casamento engessado

Não demora muito para perceber a falta de comunicação entre Adèle e seu marido. Essa falta de comunicação não é no sentido de que eles são frios um com o outro ou estão vivendo uma vida conjugal de fachada. A impressão que passa é que os dois (especialmente Adèle) estão vivendo fases diferentes do casamento.

Gosto do fato de Slimani não enfeitar as coisas. Isso influencia completamente a construção da personagem e até o tom da narrativa, que passam a ideia de rigidez característica de Canção de Ninar.

Adèle admite ver às vezes o filho como um fardo e o marido como uma decisão errada. Adèle deixa claro que se sente frustrada com o rumo que sua família está tomando. Ela sente a monotonia da rotina, a posição de boa esposa e mãe que empurram em sua direção como um papel que precisa desempenhar. E é essa obrigação, tão não bem-vinda, que alimenta a vontade de se sentir mais uma vez livre e no controle da sua vida.

Trecho de No Jardim do Ogro

Ler ou não ler?

No Jardim do Ogro não vai agradar todo mundo. Acho que ganhar o público não foi a intenção da autora quando resolveu escrever o livro. A história não possui o mesmo apelo de Canção de Ninar, seja por ausência de mistério, falta de um grande e aguardado acontecimento (no caso de Canção de Ninar, um assassinato) ou insipidez dos personagens.

Esse não é “o” livro – nem da vida e nem dentre os trabalhos de Slimani. Por outro lado, é interessante ver como a narrativa se desenrola. A história muda completamente lá pelo fim. Para quem começou refém dos seus próprios desejos, Adèle termina aprisionada de outras maneiras.

Esperando seu marido sair do banheiro, ela desdobra um papel e começa uma lista. Coisas a fazer, a recuperar, sobretudo. Ela tem as ideias claras. Vai limpar o cotidiano, livrar-se, uma por uma, de suas angústias. Vai cumprir seu dever.

Avaliação: 3 de 5.

Emma, de Jane Austen

Emma é um dos maiores livros escritos pela Jane Austen – deve estar par a par com Mansfield Park –, o que explica por que eu o deixei esfriando na estante por uns meses até encontrar coragem para lê-lo.

Ele é favorito de muita gente, mas também divide opiniões por ter uma personagem complicada. Foi o que mais pesou para mim, que já estava esperando pelo pior depois da leitura de Persuasion.

Agora que finalizei o livro e fiz uma lista mental de prós e contras, posso dizer que Emma é tudo aquilo que eu pensei que seria, mas muito mais em certos aspectos. Fazer esta leitura foi como reencontrar uma versão diferente e ao mesmo tempo familiar de Austen.

Críticas

Há sempre uma característica que procuro encontrar nos romances de Austen, pois acho que é uma das marcas registradas da escritora. Muito à frente do seu tempo, Austen soube usar o bom humor (acompanhado da acidez familiar) para dizer o que a incomodava na sociedade inglesa do século XIX.

A linguagem ácida que tanto defendo nas obras da autora está ainda mais marcante em Emma, pois segue toda a história do livro. No decorrer da leitura, é possível notar a superficialidade de algumas conversas e a frequência de erros e desentendimentos criados com base em opiniões preconcebidas sobre alguém só pela origem desconhecida ou posição social.

Lombada de Emma da edição da Arcturus Publishing

Emma, a vilã?

Não tem como falar do livro sem falar dela, a Emma. Totalmente à mercê da influência de quem já tinha lido a obra, eu estava preparada para encontrar uma personagem insuportável, que olhasse apenas para seu próprio umbigo.

Emma Woodhouse tem suas falhas, é verdade. Mimada, sempre teve todos os recursos financeiros para se apresentar de forma “respeitável” na alta sociedade. É também bem intrometida na vida das pessoas, tendo adotado Harriet Smith como seu projeto de caridade e se servido de cupido para encontrar um pretendente à amiga. No entanto, sua obstinação em não se casar me deixou admirada. Ela simplesmente foge do senso comum.

Austen construiu uma personagem forte em suas convicções. Muitas delas começam de maneira desastrosa, mas o que se deve levar de mais importante é que Emma aprende com os enganos. Demora? Sim. Dá raiva? Também. Para acertar, Emma precisa errar algumas (muitas) vezes.

Até mesmo nos momentos finais do livro vemos um resquício de egoísmo por ela querer a felicidade para si, o que a faz tomar mais decisões erradas sob a justificativa de evitar ser o motivo da tristeza alheia. Mas isso não faz dela uma vilã. Afinal, quem não quer ser feliz?

Emma é uma personagem a ser lapidada. Seus erros são o ponto de partida do livro, uma vez que levam à correção de todos os desentendimentos da história e ao amadurecimento do caráter. Ela é muito real, o que explica por que tantas pessoas cismam com ela (ao mesmo tempo que se reconhecem nela).

Ler ou não ler?

Dizer que achei o livro maravilhoso é querer puxar demais. Emma é uma obra grande para os padrões de Austen. Isso não seria um problema se todo o conteúdo agregasse à história, o que não aconteceu neste caso.

Acredito que Austen poderia ter sido mais sucinta. Alguns diálogos me pareceram desnecessários – não pelo teor da conversa, apenas porque não fazem muita falta.

Por outro lado, Emma diverte e surpreende. O início não é tão confuso como em Persuasion, o que já considero uma vitória.

Vale a pena conhecer o livro. Apesar de não ter o ritmo fácil de Orgulho e PreconceitoEmma não é o bicho-papão que eu imaginava.

“I have none of the usual inducements of women to marry. Were I to fall in love, indeed, it would be a different thing! but I never have been in love; it is not my way, or my nature; and I do not think I ever shall.”

Avaliação: 3.5 de 5.

Lendo e-books: Frida, The Memory Police e mais

Há anos adotei o e-book na minha rotina de leituras, mas ultimamente deixei esse formato de lado e priorizei o livro físico. Li um livro digital e outro em 2020 – nada que tivesse me prendido a atenção. Porém, nos últimos meses, minha vontade de ler e-books voltou, e preciso dizer que tenho encontrado livros maravilhosos.

Nunca falei de um e-book que li por aqui porque fico sem saber como tirar as fotos (sou o tipo de pessoa que precisa deixar tudo padronizado). A melhor forma que encontrei de não deixar as leituras passarem batido é juntá-las em uma publicação única e – adivinhem – padrão. Não sei qual vai ser a periodicidade disso; devo juntar leituras até achar que está bom o suficiente para publicar.

Trouxe desta vez os últimos quatro livros lidos no formato digital. Um deles foi o que me motivou a compartilhar minhas leituras em e-books:

1. Por Que Eu Não Converso Mais com Pessoas Brancas sobre Raça, de Reni Eddo-Lodge

Li este livro de não-ficção faz alguns meses. Cogitei trazer uma resenha sobre ele, mas desisti pela falta de foto.

Fiquei imensamente feliz de ter conseguido adicionar essa leitura no Kindle, primeiro porque foi de graça e segundo que vem de um gênero literário ainda pouco explorado de minha parte.

Não sei nem como explicar o impacto que o livro da Reni Eddo-Lodge teve sobre mim. É uma obra que dará enfoque ao racismo estrutural no Reino Unido (de onde a autora é), com menções e exemplos também dos Estados Unidos. Apesar da diferença geográfica, todas as questões abordadas pela autora podem ser debatidas no Brasil também.

Reni não faz rodeios; é direta ao dizer que falar com pessoas brancas sobre raça é importante, mas não uma obrigação que pessoas de cor precisam tomar para si. Reni fala sobre desentendimentos, más interpretações e o processo demorado e “custoso” a pessoas brancas para enxergar que estão em uma posição de privilégio pela cor e, em grande parte dos casos, classe social.

Reni também levanta a questão da imigração, o que só deixou a leitura mais interessante e enriquecedora. Esse livro foi com certeza um dos meus favoritos de 2020.

2. Identidade, de Nella Larsen

Achei a sinopse de Identidade bem interessante, mas foi a capa que me chamou a atenção (adoro colagens!). Os elementos visuais são fiéis à atmosfera do livro, e mesmo assim não dizem muito sobre a proposta central da história.

Gostei de conhecer Nella Larsen. Sinceramente, nunca tinha ouvido falar dela. Fui descobrir só agora que sua contribuição na literatura é antiga e marcante.

Em Identidade, a autora também vai abordar o racismo estrutural, mas sob uma perspectiva diferente. O debate sobre colorismo é bem forte, embora outros temas, como diferenças de classe social e gênero estejam enraizadas na história também.

Apesar da importância dos temas tratados, ainda tão atuais e discrepantes, o desenvolvimento da história é fraco. A meu ver, a autora poderia ter esticado mais o livro, trabalhando no background da amizade de Irene e Clare. Sendo tão curto, Identidade não me prendeu nem me deixou interessada em acompanhar o destino das amigas.

3. Frida – a biografia, de Hayden Herrera

Nunca me interessei pelas obras da Frida Kahlo, mas sempre achei que sua história de vida fosse tão interessante que ler sua biografia seria uma experiência única. E foi mesmo.

Frida foi tudo o que imaginei: amante da arte, da vida e da morte. Já imaginava que seu acidente tivesse gerado um trauma duradouro (basta ver as suas obras), até porque as cicatrizes e as consequências nunca foram embora. E mesmo assim ela viveu uma vida cheia de acontecimentos – muitos conturbados, pode-se dizer.

A biografia de Frida faz uma interpretação aprofundada de sua arte. Mesmo assim, o livro é bem equilibrado e dá para conhecer um pouco do gênio dela, suas ambições e posição política, além da devoção a Diego Rivera.

4. The Memory Police, de Yoko Ogawa

Pense em um livro bastante comentado. The Memory Police ainda não chegou ao Brasil, mas foi recomendado na gringa. Comecei a ler sem saber muito sobre a história e me deparei com uma distopia – gênero literário de que gosto e posso tirar várias reflexões no fim.

Acho que a maior cartada desse livro é seu tema principal: memórias. Não vou dizer que a maneira como Yoko Ogawa desenvolve a narrativa é original, mas tratar a memória como nossa identidade, uma extensão de nós mesmos e do papel que desempenhamos no planeta torna toda a experiência de leitura um aprendizado e um lembrete para valorizarmos nossas lembranças, por mais banais que possam ser.

Os momentos finais de The Memory Police são bizarros demais para tirar algum significado deles. Foi o que me impediu de dar uma nota maior para o livro, mas ainda o recomendo.

O que não deu certo em Pessoas que Passam Pelos Sonhos

Até agora estou sem saber se comento sobre Pessoas que Passam Pelos Sonhos. Terminei o livro há um mês, mas achei que não tinha por que falar dele. O primeiro motivo é que ele saiu pela extinta Cosac Naify, o que torna mais difícil de achá-lo agora. A outra razão diz respeito ao meu gosto pessoal. Eu simplesmente não gostei.

Perguntei para uma amiga minha se valia a pena dar minha opinião e ela disse que sim, pois até mesmo as leituras ruins são válidas de ser compartilhadas. Concordei.

O livro não é mal escrito. Longe disso. Acho que o autor tem certo domínio com as palavras e soube trabalhá-las quando quis, embora peque pelas descrições em excesso só para enfeitar a narrativa. Algumas passagens são interessantes. Podem emocionar, nos fazer sentir, refletir… Seriam bem aproveitadas se o desenvolvimento do enredo não comprometesse todo o resto. Talvez funcionassem melhor para outras histórias.

Parte de trás do livro com trecho

Pessoas que Passam Pelos Sonhos é confuso. E não propositalmente confuso; o livro não tem uma estrutura que o sustente. A história trata do encontro de duas vidas distintas que se conectam quase que instantaneamente pela sensação de desgaste familiar.

O encontro entre o taxista argentino Tortoni e o arquiteto brasileiro Rivoli não poderia ser mais estranho. Basta uma corrida para que ambos acertem uma viagem à Patagônia. Entendo que cada um tem seus motivos para partir, mas a maneira como Cadão Volpato fez isso acontecer pareceu, no mínimo, forçado.

Achei que a viagem fosse me oferecer uma luz sobre a história, mas a intenção não é revelada – eu, pelo menos, não achei algo que justificasse o livro. Pessoas que Passam Pelos Sonhos só fica mais confuso com o vai e vem de personagens, que desaparecem e reaparecem sem explicações. Pode ser intencional para nos aproximar da atmosfera do sonho, mas teve o efeito contrário.

Pessoas que Passam Pelos Sonhos é dividido em três partes

O livro amadurece em tempo, e só isso. É possível notar que a história vai ganhando uma carga mais política passada a primeira parte, mas Volpato não se aprofunda no assunto, nem para retratar a ditadura na Argentina ou no Brasil.

Pessoas que Passam Pelos Sonhos deixa de lado as reviravoltas e os grandes acontecimentos. O ponto central da história, mesmo tendo as turbulências políticas da década de 60 como pano de fundo, não foge do cotidiano. Assim fica difícil entender o propósito desse livro. Talvez Volpato não quisesse nada ao escrever a história, o que não vejo como um problema. Mas pode ser também que ele tenha pensado muito na mensagem que queria entregar e falhado na tarefa.

Resumo das minhas leituras de 2020

Finalmente podemos nos despedir de 2020 – e eu, como sempre, estou me despedindo com atraso. Não tenho palavras para descrever o ano passado. Além da situação mais óbvia, que é a pandemia, 2020 foi um teste de paciência para mim. 

Espero deixar todo o ano para trás. Estou desde março em casa, e achei que conseguiria me virar bem nesse caso, pois nunca fui de sair muito. Grande engano. O que mais desejo agora (e acredito que seja a vontade de muita gente) é pisar na rua e voltar a ver as pessoas. Vamos torcer para que, com a vacinação da população, 2021 torne isso tudo possível! 

Não me “redescobri” em 2020. Aliás, se tem algo que consegui foi aumentar meus níveis de estresse e raiva. Achei que fosse uma pessoa calma, mas me enganei. E agradeço meus vizinhos sem-noção de cima por me fazerem enxergar isso (só que não). 

No mais, 2020 foi um ano sem grandes acontecimentos no meu dia a dia. Trabalhei, assisti a algumas séries e filmes, li… E como li! 

Já imaginava que terminaria o ano com mais livros lidos do que em 2019, mas fiquei surpresa com a quantidade. Muitos livros foram releituras. Além disso, comecei a ler HQs, que incluí na contagem também.

Segue o resumo das minhas leituras em 2020: 

1. Livros lidos: 91. 

2. Livros relidos: 28. 

3. Melhores livros do ano: Nunca dá para escolher um… Intérprete de Males me surpreendeu muito no início do ano. Depois li algumas crônicas selecionadas de Clarice Lispector na edição Clarice na Cabeceira, e percebi que gosto muito mais da versão cronista da escritora (embora nem ela estivesse certa sobre seus textos não ficcionais). Outro livro que merece ser mencionado é No Seu Pescoço – adorei a complexidade, a diversificação de temáticas abordadas e a escrita de Chimamanda Ngozi Adichie. 

4. Piores livros do ano: Mil Beijos de Garoto foi com certeza o pior do ano (de muitos anos, na verdade). O maior problema do livro é a maneira como o romance é retratado, pois está longe de ser uma relação saudável. Há muita posse, raiva, ciúme, devoção. E dá para perceber que a intenção da autora não é criticar esses aspectos em um relacionamento, mas almejá-los.

5. Maior livro: The Heart’s Invisible Furies

6. Menor livro: O Amanhã Não Está à Venda

7. Edição mais bonita: Acho a capa de No Seu Pescoço muito bonita, mas fico na dúvida se é a edição mais bonita do ano. Tenho um fraco por colagens, então imaginem como fiquei ao ver Johnny Panic e a Bíblia de Sonhos

8. HQ favorita: Ainda estou começando a ler HQs, o que explica a lista enxuta do ano (foram sete). Gostei de Nimona e de Três Sombras, mas uma HQ que me deixou querendo mais foi Repeteco

9. Maior achado: Fiz algumas compras em sebos, principalmente usando a Estante Virtual. Achei ótimos livros e pretendo comprar muito mais nesta plataforma em 2021, pois foi graças a ela que conheci O Céu de Lima e encontrei Do Amor e Outros Demônios por um preço bacana.

Mulheres que Correm com os Lobos: reavivando o Self instintivo

Vou confessar que estava assustada para começar Mulheres que Correm com os Lobos. Mesmo sendo um dos livros mais vendidos do momento, ele é classificado por muita gente como enriquecedor e igualmente denso.

O livro é isso mesmo, carregado, mas no sentido mais positivo. Cru e poético, Mulheres que Correm com os Lobos é um mergulho nas águas profundas da psiquê feminina. Ler essa obra, que foi fruto de muito trabalho, pesquisa e vivência pessoal da psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés, nos faz voltar às origens para entender de que forma ocorreu o processo de domesticação da selvageria inata da mulher e como é possível recuperar parte da liberdade tomada, reprimida ou assassinada pelo comodismo.

O mais interessante é ver como Estés decidiu abordar temas centrais para o universo feminino, desde criatividade e carreira até sexualidade e amor. Destrinchando 19 histórias populares, Estés mostra como houve ao longo dos séculos esforços para limitar a natureza livre e instintiva da mulher.

Capítulo que analisa o conto sobre o Barba Azul

O livro abre com um dos contos mais famosos da literatura: o Barba Azul. Logo aqui, a mente aciona uma sirene de alerta para indicar as variações de perigo com as quais nos depararemos ao longo de Mulheres que Correm com os Lobos. Estés faz uma análise aprofundada de outros contos e mitos, como Patinho FeioVasalisaOs Sapatinhos Vermelhos e La Llorona, sempre com a ideia de que podemos tirar uma lição valiosa e nutritiva para nosso Self.

Estés também fala muito de morte, mas não no sentido literal. A morte, representada pela Mulher-Esqueleto e presente em A Donzela Sem Mãos, é parte do ciclo de renovação “vida-morte-vida”, o fim representativo da velha etapa para uma nova fase.

Trecho grifado de Mulheres que Correm com os Lobos

O livro é muito pessoal, pois cutuca o que dói, inflama a raiva acumulada e chama atenção para injustiças e perdas que as mulheres tiveram que enfrentar ao longo dos séculos. Por outro lado, Mulheres que Correm com os Lobos ensina e esclarece questões que parecem óbvias, mas precisam ser continuamente lembradas. Classifico minha experiência de leitura como um processo de autoconhecimento e, de certa maneira, de cura.

Trecho grifado de Mulheres que Correm com os Lobos

Mulheres que Correm com os Lobos despertou em mim a vontade de uivar novamente para tomar de volta meu senso crítico, minha criatividade e a direção do meu futuro. Volto a correr pela primeira vez em muito tempo. Por enquanto, não tenho hora para parar.

Apesar de tratar quase em sua totalidade da figura feminina, o conteúdo desse livro pode agregar valor a todo mundo. Leiam sem medo!

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