Fique Comigo, de Ayòbámi Adébáyò

Eu não estava muito certa se sairia uma resenha deste livro. Até a metade dele, me pareceu difícil descrever o que é a história e qual é o seu propósito para quem decide dar uma chance a ela. Demorou um pouco, mas percebi que Ayòbámi Adébáyò levantou inúmeras questões que podemos discutir – talvez até mais do que me permitirei dizer hoje.

Fique Comigo é um teste de paciência. Você tem a sinopse, os personagens e a localização, mas não entende muito bem onde a autora quer chegar nos primeiros capítulos. Sabendo esperar, você descobre, por meio da narradora Yejide, as belezas e as dores do casamento e da maternidade.

Poligamia

A história se passa na Nigéria, e seguimos Yejide e seu marido, Akin. Os dois estão há meses tentando engravidar, mas o nascimento de um filho parece um evento distante de acontecer. Quando parentes sugerem – não, obrigam – que o casal aceite uma nova esposa em casa, a relação é abalada a ponto de nem mesmo o mais forte dos elos conseguir segurar o afeto e o respeito entre duas pessoas que se amam.

A poligamia é um dos primeiros assuntos apresentados ao leitor, mas não é o único. Eu diria que não é nem o principal, embora a sinopse venda o livro como se fosse. A inserção de uma terceira pessoa no relacionamento entre Yejide e Akin serve apenas de catalisador ao que está por vir.

Parte um de Fique Comigo. O livro possui quatro divisões

A chegada de Funmi acaba acionando um alarme em Yejide, desenterrando traumas antigos de sua infância e agravando suas inseguranças em relação ao marido. Diferentemente da “tradição” familiar, a poligamia não é uma opção para a personagem, mesmo quando a sua imagem é ameaçada.

Yejide viu como é ser excluída depois que a mãe morreu, sentiu na pele a rivalidade existente entre as esposas do pai e, quando percebeu que seu lugar estava sendo disputado, decidiu se fechar para o mundo – inclusive para Akin.

Anos 80

Embora não seja o foco do livro, é importante destacar o contexto político e social descrito por Adébáyò. De maneira tímida, a autora nos apresenta um capítulo conturbado da Nigéria. Percebemos que o país estava mergulhado em um período de transformações que nem mesmo a população entendia bem. O estranhamento é sentido quando o assunto surge em algum momento da obra, e a sensação de medo e insegurança nos permite ter uma noção do clima da época.

Título

A sensação de perceber que você entendeu o título de um livro é muito boa. Achei que fosse óbvio em Fique Comigo, mas acabei me enganando. E quando percebi o verdadeiro significado dessas duas simples palavras para a história, foi como se a grandeza do livro, antes escondida, tivesse finalmente se mostrado para o mundo – ou, pelo menos, para o meu mundinho pequeno de apartamento.

Fique Comigo é um pedido que Yejide faz a Akin. Mas não só a ele. É o seu voto mais desesperador, a prece de uma pessoa que sempre ansiou em ser mãe, e já estava a ponto de entregar os pontos quando viu que “manter” era muito mais difícil do que “conseguir”.

Foto da autora Ayòbámi Adébáyò

O livro me deixou uma marca incômoda que aceitei sem pensar duas vezes. Obrigou-me a enxergar a fragilidade das coisas, a perceber que tudo é muito mais complexo do que parece. Nossas escolhas não se resumem sempre a apenas dois lados, e nem mesmo uma relação sólida está imune ao fim que mágoas maiores podem trazer.

Ler ou não ler?

Poderia ser apenas mais uma leitura mediana, só que não é. Sabendo esperar, garanto que a história chegará até você, seja por meio da identificação ou da empatia.

O desfecho chega a ser um pouco forçado, mas dá para se emocionar mesmo assim. Pense na Yejide e em sua trajetória de sofrimento. Imagine-a dizendo “fique comigo”. Essa é a visão do livro que carregarei.

As razões pelas quais fazemos as coisas que fazemos nem sempre serão lembradas. Às vezes, acho que temos filhos porque queremos deixar alguém que possa explicar ao mundo quem éramos depois que morremos.

Avaliação: 4 de 5.

Publicado por Diana Cheng

Jornalista, 23 anos. Adora passar horas perdida na narrativa de um bom livro. Além de ler, também se arrisca em escrever textos aleatórios e poemas sentimentais.

2 comentários em “Fique Comigo, de Ayòbámi Adébáyò

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