Uma Vida Chinesa: misérias, ruídos, transformações e vitórias de uma nação em quadrinhos

Eu havia falado antes que procuraria ler mais histórias em quadrinhos neste ano. Dito e feito. Estou realmente empenhada em dar uma chance a este formato de livro e, quando vi que existia uma trilogia de HQs sobre as últimas décadas da China – um assunto que procuro saber cada vez mais –, senti como se tivesse achado o pote de ouro.

Como começar a explicar Uma Vida Chinesa? Criada por Li Kunwu e P. Otié e dividida em O Tempo do Pai, O Tempo do Partido e O Tempo do Dinheiro, a obra é realmente um relato autobiográfico muito complexo. Acompanhamos pela “simples” vida chinesa de Xiao Li 60 anos de história da China – de país pobre e renegado para uma das principais potências econômicas do mundo.

Em paralelo com os primeiros anos de vida do ilustrador, o volume de estreia resgata a época de Mao Tsé-Tung no poder e sua influência sobre o povo chinês. De mudanças radicais na política e no comportamento das pessoas à temida Revolução Cultural, Xiao Li traz à tona os tempos de maior fervor e apoio ao partido comunista.

Uma canção popular da China, presente em O Tempo do Partido

Pelos traços em nanquim, é perceptível o sentimento de orgulho e dever que mobilizaram toda uma nação. Mesmo após a Revolução Cultural, que levou milhões de pessoas à miséria, a lealdade a Mao prevaleceu, e sua figura de líder prestigiado foi para sempre eternizada.

Em O Tempo do Partido, que se inicia logo depois da morte de Mao, Xiao Li é um dentre tantos jovens que desejam se filiar ao partido. Com muito esforço, ele consegue entrar no Exército Vermelho. No entanto, seu contato com a vida pacata e a relação com o pai, submetido a trabalhos forçados após se tornar um suspeito do governo, fazem Xiao Li questionar certas imposições das autoridades.

Neste segundo volume, Xiao Li demonstra seus arrependimentos sobre aquela época, seja por ter prejudicado um amigo para garantir um bom posto ou denunciado pessoas que, no fundo, sabia que não eram más só porque tinham um histórico familiar “ruim” ou não apoiavam as ideias da revolução. O conflito gerado por suas ações o perseguiu por anos, mas, diferentemente do que poderíamos esperar, ele não esconde os erros que cometeu nem apaga sua história com o governo de Mao.

Momento em que alunos se revoltam contra os professores por não seguirem corretamente os passos do governo

O terceiro e último volume de Uma Vida Chinesa é o mais diferente. Vemos uma rápida mudança na China, agora socialista, apoiada pelas iniciativas de modernização de Deng Xiaoping. A abertura econômica, o início do mercado de capitais, os avanços tecnológicos, a influência ocidental… A transformação foi tão brusca que nem todo mundo conseguiu acompanhar o crescimento acelerado do gigante asiático.

Em O Tempo do Dinheiro, fica claro o choque entre as gerações e as diferenças nas perspectivas de quem viveu o comunismo e de quem herdou essa história.

Opinião de Xiao Li sobre a primavera de 1989

Se você ficou interessado e quer dar uma chance à HQ, aconselho que mantenha a mente aberta durante a leitura. É um assunto delicado, julgado de maneira apressada por muitas pessoas.

Quem vê a China de fora – e estou incluída nisso – tende a enxergar apenas a superfície. Entender o atual regime do país nos obriga a olhar para as décadas mais violentas – e menciono aqui não apenas a época de Mao, mas todas os anos anteriores de guerra, devastação, fome e humilhação que levaram o líder comunista ao poder.

Página retratando a visão que muitos estrangeiros têm sobre a China

Acredito que uma das principais propostas de Uma Vida Chinesa está em desconstruir essa imagem ruim e rasa que os ocidentais têm sobre a cultura chinesa. Não é uma HQ que irá apagar os erros do país; pelo contrário. Ela os expõe, joga tudo na mesa, e cabe a nós compreender que, como qualquer outra nação, existem qualidades boas e ruins as quais precisamos levar em consideração.

Posso não concordar com certas atitudes e opiniões de Xiao Li, como a questão da primavera de 1989. Mas definitivamente ganhei uma nova perspectiva sobre os chineses. Demorou um pouco, porém, finalmente consegui enxergar uma réstia da China dos meus pais.

Leiam esta HQ.

Publicado por Diana Cheng

Jornalista, 23 anos. Adora passar horas perdida na narrativa de um bom livro. Além de ler, também se arrisca em escrever textos aleatórios e poemas sentimentais.

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