O Céu de Lima, de Juan Gómez Bárcena

Tragicamente divertido e comicamente triste, O Céu de Lima parte de uma premissa única e, mais fascinante ainda, real.

A história de como o poeta espanhol Juan Rámon Jiménez foi enganado por Georgina Hübner, mulher inventada por dois jovens do Peru que serviu de inspiração para Labirinto, publicado em 1913, ganha ares ficcionais cativantes nas mãos de Juan Gómez Bárcena. O autor não se intimida na hora de recriar o passo a passo do plano de Carlos Rodríguez e José Gálvez e reviver a Lima do começo da década de XX.

“Acreditam ser poetas”

É com bastante ironia que o narrador de O Céu de Lima repete a mesma frase ao longo do livro, principalmente nas primeiras páginas: Eles “acreditam ser poetas”.

Vejam bem, Carlos e José acham que são poetas. Ou ao menos querem acreditar que são. Eles até escrevem, mas não dão muita bola para a qualidade de seus trabalhos. Filhos da elite, os dois são da opinião de que basta ler escritores famosos e ter uma fonte inesgotável sobre o assunto para se venderem como experts da área.

Isso já nos mostra o caráter desses jovens, que crescem dentro de uma bolha seletiva e reproduzem a forma de agir e pensar da sociedade abastada e conservadora da época. Nesse ponto, confesso que fiquei indignada com Carlos e José; indignação que se transformou em risadas conforme seguia a narração, que traz consigo um ar de comédia.

O autor Juan Gómez Bárcena

Era como se Bárcena chamasse minha atenção e risse junto comigo, dizendo: “Pode acreditar nesses dois?”.

A mulher inventada transforma-se em algo mais

No decorrer do livro, o autor se debruça no desenvolvimento dos personagens, dando maior enfoque sobre Carlos. Bárcena não chega a tirar o “desgosto” natural que o leitor pode sentir pelo jovem, mas dá um contexto às suas experiências de vida. E embora o final não seja o que esperaríamos de uma pessoa que teve um “choque de realidade” com o cenário de transformações políticas e trabalhistas no Peru em 1905, certamente fabrica uma nova maneira de olhar para ela.

Entendemos que Carlos está confuso com seus sentimentos, a forma como se coloca perante a sociedade, a relação difícil que mantém com o pai e o desconforto que sente estando entre amigos – mesmo quando o amigo é o próprio José.

É em meio a esta crise juvenil que ele busca apoio em sua própria criação. Georgina deixa de ser um canal para conseguir livros novos e autógrafos de seu poeta favorito. Georgina não parece mais uma simples brincadeira.

Em O Céu de Lima, arrisco dizer que a mulher inventada foi mais amada por Carlos do que pelo Juan Rámon.

Assinatura de Carlos e José no fim do poema escrito por Juan Ramón Jiménez sobre a amada Georgina

Ler ou não ler?

O Céu de Lima é um daqueles livros que descobrimos por acaso e nos surpreendemos com a escrita, a narrativa e a trama do começo ao fim.

A voz poética, substituída por um tom mais agressivo ou até mesmo triste em momentos oportunos, encanta, fazendo com que a leitura flua muito bem. Descontraída e tocante na medida certa, a obra pode cair no gosto de muitas pessoas, e por isso acredito que ela merece ser mais reconhecida.

Não lhe acontece também de olhar para o mundo e sentir que ele é feito com os ingredientes dos livros que lê? Não tem a impressão de reconhecer nos passantes os personagens de certos romances, as criaturas de certos autores, os entardeceres de certos poemas? Não sente às vezes que é como se pudesse ler a vida, da mesma forma que se viram as páginas de um livro…?

Avaliação: 4 de 5.

Publicado por Diana Cheng

Jornalista, 23 anos. Adora passar horas perdida na narrativa de um bom livro. Além de ler, também se arrisca em escrever textos aleatórios e poemas sentimentais.

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