Diário de leitura: 70 anos de uma vida em The Heart’s Invisible Furies

The Heart’s Invisible Furies veio até mim como uma oportunidade. Paguei baratinho pelo livro, que já tinha sido altamente recomendado por alguns leitores. Quando o peguei nas mãos e vi que tinha quase 730 páginas, sabia que estava na hora de fazer mais um diário de leitura.

Essa experiência rendeu duas páginas cheias de comentários. Não imaginei que teria tanta coisa para falar sobre esse livro, até porque nada sabia da história dele. The Heart’s Invisible Furies acabou se mostrando um prato cheio de discussões e lágrimas.

O diário de leitura não contém spoilers. As informações sobre os personagens estão na sinopse, enquanto as datas serviram para ambientar a história.

The Heart’s Invisible Furies (23 de agosto de 2020 – 5 de setembro de 2020)

23 de agosto de 2020, domingo – Não sei muito sobre a história de The Heart’s Invisible Furies; minha única certeza são as mais de 700 páginas do livro, que me assustaram no início. Agora que comecei a leitura, percebi que a história passa voando.

Nos primeiros capítulos, acompanhamos a expulsão de Catherine Goggin de casa por ter engravidado. O mais interessante é que a história é narrada por seu filho, Cyril, como uma espécie de reconto. Ele transmite as palavras da mãe, mas acrescenta suas próprias suposições sobre toda a aventura dela vivendo em uma cidade nova da Irlanda. Gostei bastante dessa estrutura.

O livro é dividido em partes com intervalos de sete anos cada

24 de agosto de 2020, segunda – Estou chegando ao fim da história de Catherine. É admirável a força dessa mulher para se virar sozinha. Ela chega a mentir para conseguir trabalho, o que não é muito ético, mas compreensível. O livro tem se mostrado muito divertido e bem-humorado, apesar dos acontecimentos tristes da história, como a saída forçada da garota do único lugar que conhecia. 

Entrei no ano de 1952, com Cyril narrando suas primeiras memórias com os Avery, os pais adotivos (Catherine não teve como ficar com ele). As coisas parecem… estranhas. Mas de uma maneira hilária.

Perto de alcançar a página 100. Sinto um misto de pena e curiosidade por Cyril. Ninguém se preocupa o bastante com ele, mas isso não parece abalá-lo. É quase como se ele aceitasse e concordasse com essa dinâmica.

27 de agosto de 2020, quintaThe Heart’s Invisible Furies abrange diversas temáticas, mas sinto que a imoralidade e o despeito são alguns dos principais assuntos do livro. Isso é visto em toda a Irlanda da década de 50, com destaque para os pais adotivos – que, por viverem bem e terem uma boa posição social, ditam junto com a Igreja e os políticos o “certo” e o “errado” pelas suas próprias regras.

Unindo sensibilidade, desgraça e humor, The Heart’s Invisible Furies é uma comédia de acasos infelizes.

28 de agosto de 2020, sexta – Acho que não atualizei o período. Cyril está com 14 anos agora e reencontrou Julian, um garoto que ele conheceu sete anos atrás e de quem nunca esqueceu. Estou em 1959, uma época de muita intolerância, disparidade social, preconceito e conservadorismo. Mas, pelos olhos de Cyril, todas essas questões parecem indefinidas ainda. Ele é um adolescente, com a cabeça preenchida pela escola, pelos trotes e por Julian. Principalmente Julian.

Capítulo sobre Julian

29 de agosto de 2020, sábado – Não comecei a leitura da nova divisão, que acontece em 1966. Cyril tem uma ideia melhor sobre sua sexualidade, mas não fala com ninguém sobre isso por temer pela própria vida e correr o risco de perder todo mundo (isso numa época em que ser gay era crime na Irlanda). É muito triste. Eu só quero que ele se sinta feliz. Ele, que sempre teve tudo pela metade.

30 de agosto de 2020, domingo – O livro entrou em um ritmo mais lento. Cyril chega a viver uma “vida dupla” para acobertar quem ao mesmo tempo que sacia seus desejos.

1º de setembro de 2020, terça – Passei a metade do livro. Quantas reviravoltas! No início dos anos 80, Cyril saiu da Irlanda e refez a vida. Parece mais sossegado longe de Dublin, mas não me atrevo a dizer que está feliz. Ele tem um namorado e construiu um relacionamento sólido pela primeira vez.

2 de setembro de 2020, quarta – Cyril faz mais uma mudança. Passou da Alemanha para os Estados Unidos. Uma nova onda de ódio contra homossexuais chega com a explosão da Aids. A falta de informações sobre a doença abriu espaço para a ignorância das pessoas.

Mais uma reviravolta. E QUE reviravolta!

Perto de alcançar a página 500. Os últimos capítulos foram cheios de descobertas que vão definitivamente mudar o rumo da história e desenterrar os traumas de Cyril.

4 de setembro de 2020, sexta – Estou a 100 páginas de terminar. Juntamente com a narrativa, Cyril envelheceu. As coisas parecem ter se ajeitado, embora as lembranças insistem em pegar o personagem de surpresa de vez em quando. O livro ganhou uma atmosfera melancólica.

Falta o acontecimento principal: a descoberta do filho pela mãe e da mãe pelo filho.

Recado final de John Boyne sobre ter escrito The Heart’s Invisible Furies

5 de setembro de 2020, sábado – Acabei! Sinto que acompanhei a vida inteira de uma pessoa em menos de um minuto. Achei que ficaria intimidada com o número de páginas que o livro tem, mas a história é tão bem escrita e estruturada que a leitura passa rapidinho.

The Heart’s Invisible Furies é cativante. Apesar do blurb, eu não estava esperando que fosse tão bem-humorado. É claro que o drama acabou falando mais alto em alguns momentos, tendo arrancado lágrimas de mim. O tema também é bastante sensível, mas o livro me passou a impressão de ser leve – na medida do possível, pelo menos.

Adorei o Cyril. Ele é um ótimo personagem, embora tenha me parecido muito introspectivo. O autor John Boyne mencionou essa característica, que reflete muito a sua própria personalidade. Honestamente, acho que entendo. Teria como ter sido diferente? Em um cenário onde Cyril era constantemente reprimido e precisava se esgueirar em becos escuros no meio da noite, o que eu poderia esperar dele se não hesitação e até mesmo desconfiança?

The Heart’s Invisible Furies passa a impressão de ser um trabalho muito pessoal do autor, que já emociona os leitores pelas histórias que se passam durante a Primeira ou Segunda Guerra Mundial. Pelo Cyril, vivemos as emoções sob um contexto diferente, cheio de propósito e significado. Afinal, são 70 anos de uma vida. Nesse cesto da existência cabe muita coisa.

Publicado por Diana Cheng

Jornalista, 23 anos. Adora passar horas perdida na narrativa de um bom livro. Além de ler, também se arrisca em escrever textos aleatórios e poemas sentimentais.

2 comentários em “Diário de leitura: 70 anos de uma vida em The Heart’s Invisible Furies

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