When We Were Orphans, de Kazuo Ishiguro

Na minha cabeça agitada e incansável, eu tinha imaginado diversos cenários para o meu primeiro livro do Kazuo Ishiguro. Alimentei certezas absurdas de que iria amar a leitura e tornaria o autor uma figura recorrente na estante – como foi com o Haruki Murakami.

Escolhi o livro errado, disso não tenho dúvida. When We Were Orphans, embora seja realmente bem escrito e ambientado, não consegue se sustentar ao longo das páginas e prova que ousar na construção de uma história é sempre bom, mas ousar demais pode trazer o efeito indesejado.

Tentativa mirabolante

O livro propõe ser um misto de suspense, investigação e drama familiar. Situada nos anos 1930, a história tem como protagonista Christopher Banks, detetive inglês nascido em Shanghai. Aos nove anos de idade, Banks fica órfão e se muda para a Inglaterra. Duas décadas depois, decide voltar à terra natal para tentar desvendar o maior mistério de sua infância: o desaparecimento dos pais.

Alternando entre a vagueza característica das primeiras lembranças e os cenários de destruição do período histórico da invasão japonesa na China, Ishiguro conduz o leitor para um desfecho mirabolante. Ou tenta, pelo menos.

De um começo parado, ambientado em uma sociedade de eventos e conversas decorosas, à solução rápida e decepcionante de um mistério de vinte anos, o autor perde o controle da sua própria criação no meio do caminho.

Além dos personagens fracos e pouco cativantes, a estrutura temporal adotada por Ishiguro é confusa, embora tenha o propósito de mostrar a ligação de Banks com o passado, que muitas vezes se confunde com os presentes acontecimentos. É também uma forma de destacar o apego do detetive às memórias cultivadas em uma época aparentemente tranquila sob o olhar de um garoto ingênuo vindo de uma família inglesa.

O livro é dividido em sete partes

Ecos da guerra 

When We Were Orphans comprova que Ishiguro tem domínio das palavras. Como um monstro invisível, as descrições da Segunda Guerra Sino-Japonesa ditam o humor da narrativa e imprimem cenas de horror e tristeza até mesmo depois do fim da leitura.

E não só da Guerra Sino-Japonesa, pois as consequências da comercialização do ópio também ganham destaque, sendo determinantes para a conclusão do caso do detetive Banks.

Contrariando as expectativas, o livro consegue emocionar quando quer. Ele ainda levanta reflexões bastante interessantes sobre como o passado de um país molda o imaginário coletivo atual.

Basta ver, por exemplo, a situação da China, que não se recuperou (emocionalmente falando) das derrotas. Basta ver a imagem que as pessoas têm da população – inclusive, Ishiguro cutuca essas feridas em When We Were Orphans, e confesso que fiquei incomodada com o tratamento inferior (intencional ou não, não sabemos) dado a esse grupo, terminando sempre com “Isso é típico dos chineses” para qualquer coisa ruim.

Ler ou não ler? 

Como disse antes, errei em começar minha trajetória com Ishiguro por meio deste livro. Isso não quer dizer que ele é ruim. A obra tem suas qualidades, porém, foram os defeitos que pesaram mais durante a minha leitura.

Dentre tantos pontos negativos que mencionei, posso garantir que a leitura não é exaustiva. Pelo contrário, flui muito bem. Ela pode não ter se saído como eu esperava, mas isso não serve de regra para a experiência dos outros.

Ainda acho que o autor, como um grande e reconhecido contador de histórias, tem lados que preciso descobrir para saber, de uma vez por todas, se sua estreia na minha estante também significa uma despedida.

“This soldier. You had met him somewhere previously?”

“I thought I had. I thought he was a friend of mine from my childhood. But now, I’m not so certain. I’m beginning to see now, many things aren’t as I supposed.”

The colonel nodded. “Our childhood seems so far away now. All this” –he gestured out of the vehicle – “so much suffering. One of our japanese poets, a court lady many years ago, wrote of how sad this was. She wrote of how our childhood becomes like a foreign land once we have grown.”

Avaliação: 2.5 de 5.

Publicado por Diana Cheng

Jornalista, 23 anos. Adora passar horas perdida na narrativa de um bom livro. Além de ler, também se arrisca em escrever textos aleatórios e poemas sentimentais.

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