Terra Sonâmbula, de Mia Couto

Cheguei à conclusão de que sempre começamos a falar de Mia Couto por sua escrita. Pode não ser uma verdade universal, mas essa abordagem me pareceu óbvia antes mesmo da leitura de Terra Sonâmbula. Se a narrativa cai no gosto das pessoas ou não, isso já é outra história.

Mia Couto sabe como usar as palavras. Não é à toa que seu nome é constantemente associado ao de Guimarães Rosa e Gabriel García Márquez. Como muitas obras brasileiras, sua escrita se sustenta pela coragem de inventar termos e expressões que não conseguem ser traduzidos para outro idioma – até poderiam tentar, mas não teria o mesmo impacto ou beleza imagética.

De um encanto sensivelmente doloroso e com descrições associadas ao realismo mágico que caracterizou a literatura latino-americana do século XX, Terra Sonâmbula propõe uma viagem marcante em busca de respostas engolidas por uma terra doente.

Moçambique dormente

Terra Sonâmbula é a história de Muidinga, menino resgatado pelo velho Tuahir. Tendo só um ao outro, os dois resolvem iniciar uma longa caminhada nas terras castigadas da guerra civil em Moçambique, com o clima devastador e a destruição humana pintando o cenário do livro.

Muidinga é a peça-chave da história, pois fica encarregado de encontrar os cadernos de Kindzu. Nesse momento, Mia Couto introduz duas linhas temporais diferentes para falar de coisas que sentimos e, por vezes, tentamos soterrar – seja medo, perda, arrependimento ou solidão.

Um dos cadernos de Kindzu

Terra Sonâmbula não é um livro carregado e manchado pelos atos da guerra na forma mais direta; é antes de tudo uma ausência de pessoas, apesar dos acontecimentos reavivados nos cadernos. Mas o que falta de presença sobra em memórias. Até mesmo nos registros de Kindzu a narrativa continua bem introspectiva, com várias voltas ao passado.

Sonhar não custa nada

O livro apresenta uma carga triste, mas carrega fortes mensagens de esperança e imaginação. Muidinga e Tuahir buscam perseguir a paz e encarar algo maior do que eles mesmos – mesmo quando a solução está em cavoucar o passado ou criar nomes e rostos para dar sentido à própria existência.

Terra Sonâmbula é a terra abatida dos órfãos da pátria e dos filhos da fome, e é também a resistência contra o desespero – para manter a sanidade, só sonhando e inventando.

Trecho grifado de Terra Sonâmbula

Ler ou não ler?

Se está em busca de frases de efeito, este livro é para você. Agora, se quer começar a ler os livros do Mia Couto, não tenho tanta certeza de que Terra Sonâmbula é uma boa leitura de estreia.

Eu mesma tive problemas ao longo da história. O início me prendeu a atenção, só que o desenrolar dos acontecimentos não me manteve focada. O livro é mais parado, pois retrata não a ação da guerra, mas as mudanças que ela traz e o vazio e o desespero que ela provoca nas pessoas.

Em algum momento, caminhando para o desfecho, a leitura ficou um pouco saturada para mim. O que compensou parcialmente esse ponto negativo foi o fim marcante, digno das últimas páginas dos livros de Gabo.

Roubaram-vos tanto que nem sequer os sonhos são vossos, nada de vossa terra vos pertence, e até o céu e o mar serão propriedade de estranhos.

Avaliação: 3.5 de 5.

Publicado por Diana Cheng

Jornalista, 23 anos. Adora passar horas perdida na narrativa de um bom livro. Além de ler, também se arrisca em escrever textos aleatórios e poemas sentimentais.

5 comentários em “Terra Sonâmbula, de Mia Couto

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