Alexandre, o contador pouco confiável

Não deu nem tempo de liberar direito a publicação de Vidas Secas e tratei de terminar Alexandre e Outros Heróis, mais uma obra de Graciliano Ramos que me surpreendeu – mas por motivos totalmente diferentes.

Achei que voltaria a ler algo do autor por Angústia, um livro muito bem falado por quem conhece melhor o trabalho do romancista, mas encontrei as histórias de Alexandre por acaso no sebo. Como não quis perder a oportunidade, comprei.

Alexandre e Outros Heróis é uma leitura rápida – tão rápida quanto Vidas Secas. Acredito que sejam os capítulos episódicos; se não isso, a linguagem que, embora tome a liberdade de criar termos e adotar expressões regionais, é bastante fluida e cativante.

Nota inicial de Alexandre e Outros Heróis

Nesse compilado de histórias, não espere encontrar a crítica escancarada da desigualdade social e os relatos das condições adversas da seca. As aventuras de Alexandre, caçador e vaqueiro de um olho torto, foram feitas para ser compartilhadas numa roda de conversa. São histórias cheias de tradições e imagens fantásticas do sertão nordestino relatadas por um personagem vivido – e, segundo ele mesmo, cem por cento honesto.

Os “causos” de Alexandre deixam qualquer um com vontade de saber mais. De estar presente para ser o primeiro a fisgar qualquer contradição, pois as histórias são por vezes tão absurdas que a situação fica cômica.

É o que Firmino, uma das pessoas acostumadas a ouvir Alexandre, faz: ele confronta quando encontra um buraco no relato do contador. E Alexandre não deixa barato, pois logo devolve as acusações com mais acusações. Quem vence? Alexandre, que tem a vantagem de contar com a palavra de Cesária, a esposa que só concorda.

As histórias de Alexandre ganham notoriedade pelo boca a boca; elas vão crescendo a ponto de não fazerem mais sentido. São sempre essas as melhores.

Capítulo de Pequena História da República, um dos livros de Graciliano Ramos que entraram para essa edição

Alexandre e Outros Heróis também reúne outros dois livros de Graciliano: A Terra dos Meninos Pelados (esse eu li e passei por cima) e Pequena História da República (uma leitura muito interessante, de linguagem descontraída, que aborda desde a queda do Império até a dissolução da República Velha no Brasil).

Publicado por Diana Cheng

Jornalista, 23 anos. Adora passar horas perdida na narrativa de um bom livro. Além de ler, também se arrisca em escrever textos aleatórios e poemas sentimentais.

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