1984, a distopia futurista que ficou velha

Depois que as obras de George Orwell entraram em domínio público, uma onda de edições bonitas de 1984 e A Revolução dos Bichos invadiu o mercado editorial. Vendo tanta opção à venda, fiquei um pouco desnorteada; não sabia para qual lado ia. Pareceu-me que o mundo inteiro tinha lido algo do autor. Pois bem: foi com uma sensação de obrigação que comprei meu exemplar de 1984. Optei pela edição clássica da Companhia das Letras – que, diga-se de passagem, é linda.

As pessoas pintam 1984 como um livro revolucionário – e, sem dúvida, é mesmo. Acho fascinante como o livro, publicado em 1949, conseguiu ficar ao mesmo tempo a par e à frente de sua época tanto nas questões político-sociais (vale lembrar que, logo após a Segunda Guerra Mundial, veio a Guerra Fria, perdurando até o início da década de 1990) quanto em avanços tecnológicos.

Deixo claro que gostei de 1984. É um livro bom e tem inúmeros atrativos, como a novafala – escritores que inventam idiomas sobem alguns degraus da minha escada fictícia do prestígio. Porém, não consegui afastar a leve impressão de que talvez a obra tenha chegado a mim tarde demais.

Vigilância constante por câmeras. Telas para comunicação. Propaganda maciça. Esse é o futuro tecnológico de 1984 que virou nossa realidade. Uma realidade que tem sido superada dia após dia, com invenções novas chegando, tecnologias que nem mesmo a mente brilhante (e um pouco vidente) de Orwell poderia desenhar.

Portanto, sob um ponto de vista totalmente subjetivo, imagine minha decepção ao encontrar um futuro que… envelheceu.

Acho que dei por falta de algo que pudesse me surpreender na obra, pois tudo o que encontrei não me pareceu uma grande novidade. Winston também não é um personagem carismático, o que me deixou mais na posição de observadora (seria eu “o olho que tudo vê”?), e não de alguém presente nos acontecimentos.

Trecho da obra-prima de George Orwell

Sendo franca, minha experiência com 1984 seguiu a mesma fórmula de seus pares Admirável Mundo Novo e Laranja Mecânica. A diferença é que adorei Laranja Mecânica e fiquei decepcionada com Admirável Mundo Novo, deixando 1984 entre os dois.

A violência e o forte apelo sexual estão presentes nas três obras. Imagine, então, como foi encontrar pela terceira vez as mesmas características dessas distopias do século XX, ainda que em graus de intensidade diferentes (Laranja Mecânica, por exemplo, é mais violento, enquanto Admirável Mundo Novo foca em sexualidade e reprodução).

Meu terceiro e último ponto “negativo” é que, logo depois de 1984, descobri Nós, do escritor russo Ievguêni Zamiátin. 1984 e Nós são dois livros muito parecidos. Eu, que não estudei a fundo as duas obras, vi semelhanças por toda parte – na construção dos personagens, na estrutura da narrativa, no enredo…

Nós foi escrito na década de 1920, e há discussões sobre como o livro de Zamiátin pode ter influenciado a obra de Orwell. Particularmente, gostei mais da obra russa. Pena que não ganhou a popularidade de 1984.

Longe de mim tirar o mérito de 1984. Essa obra fez o que poucas conseguiram fazer: virou um símbolo para a literatura mundial e atualmente serve de referência para lançamentos e projetos futuros. Esse é o poder da figura marcante do Grande Irmão.

Publicado por Diana Cheng

Jornalista, 24 anos. Adora passar horas perdida na narrativa de um bom livro. Além de ler, também se arrisca em escrever textos aleatórios e poemas sentimentais.

2 comentários em “1984, a distopia futurista que ficou velha

  1. Estou com ele para ler (junto de uma pilha enorme de livros kkkk) e acho que compartilho desse sentimento “talvez a obra tenha chegado a mim tarde demais”. Ainda irei confirmar, mas me identifiquei com a sua resenha e já tenho essa primeira impressão guardada!

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