O Quinze, de Rachel de Queiroz

Falamos da literatura das secas e logo pensamos em grandes representantes dessa vertente. Difícil não se lembrar de Os Sertões, de Euclides da Cunha, ou Vidas Secas, do Graciliano Ramos. Mas e O Quinze, da Rachel de Queiroz?

A obra mais famosa da escritora cearense é de grande valor para a literatura brasileira. Ela já apareceu como leitura obrigatória em alguns vestibulares. Ainda assim, fica em segundo plano quando outros livros são postos à mesa. Por quê?

O Quinze é um clássico do regionalismo. Isso quer dizer que muitas características do movimento são transmitidas pelo livro. Isso pode explicar parcialmente a falta de interesse de muitos leitores. Se li Vidas Secas, por que ler então O Quinze, certo?

Não é bem assim.

Apesar das semelhanças, principalmente no que diz respeito à temática central do enredo – a seca que abala o Nordeste –, O Quinze consegue agregar à literatura que até então carecia de presença feminina (e uma tão forte como a de Rachel).

Conceição

O Quinze segue duas histórias que vão se entrelaçar em algum momento do livro. De um lado, Chico Bento, sua mulher e seus filhos, que são obrigados a deixar a terra devido às complicações da seca; do outro, servindo como uma espécie de “respiro” à situação complicada originada pela falta de chuva, o possível romance entre Vicente e sua prima Conceição.

Trecho do livro sobre o potencial romance entre Vicente e Conceição

A figura de Conceição é um dos pontos altos do livro. Como descrevê-la? Resumidamente, pode-se dizer que é uma mulher à frente de seu tempo: na casa dos 20 anos (naquela época, isso significava ter “ficado para titia”), focada na carreira e com sede insaciável de conhecimento.

A imagem de Conceição quebra o pensamento antiquado da época sobre o papel da mulher na sociedade. Rachel dá vida a uma personagem ponderada e independente. Apesar de desejar viver um grande romance, a personagem não é refém de sentimentalismos. Fazendo uso da razão, ela consegue medir os prós e os contras de ficar com Vicente ou seguir em sua empreitada profissional.

Rastro da seca

Rachel não ameniza a gravidade da situação ao descrever o rastro de morte e devastação deixado pela seca – o solo riscado de rachaduras, o ar condensado, a natureza sem vida, o sol escaldante. 

A seca não só torna o ambiente árido, como também encurta a vida dos que são atingidos em cheio por ela.

Parte de trás do livro, com citação

Em O Quinze, isso é perfeitamente representado pela imagem de Chico Bento e sua família. O fazendeiro é golpeado logo no início do livro ao se ver obrigado a abater ou vender seus animais, que não sobreviveriam ao clima. Além de perder o gado, Chico Bento se vê sem saída: por questão de sobrevivência, precisa abandonar sua terra.

O deslocamento não é fácil. A família precisa lidar com o mal-estar, a fome e a constante ameaça da morte pairando sobre cada um dos integrantes.

A seca termina, mas não vai embora

Assim como Vidas Secas evidencia o caráter cíclico das secas no Nordeste, O Quinze mostra que o problema da seca não termina com a primeira gota de chuva caindo do céu.

Os resquícios da devastação são vistos por toda parte até o cenário voltar a ganhar vida e o gado ser recuperado. Em alguns casos, onde a situação chega ao extremo (resultando em morte), a seca carimba permanentemente a sensação de perda e impotência nas pessoas.

Ler ou não ler?

Como todo clássico, acho que vale a pena dar ao menos uma chance ao livro.

O Quinze tem a seu favor a característica de ser uma obra curta e de linguagem simples, o que faz a leitura ser rápida e menos maçante.

As descrições desoladoras da seca criam o efeito desejado, mas o melhor fica para a participação de Conceição. Os pensamentos feministas da personagem, bem como seus fortes ideais políticos, são um contraponto interessante para a história.

O Quinze é um livro bem equilibrado. Apesar do destaque de Conceição e dos paralelos na narrativa, como a tentativa da autora de alçar um romance, a seca continua sendo a protagonista (e a vilã) nesta obra.

Novamente a cavalo no pedrês, Vicente marchava através da estrada vermelha e pedregosa, orlada pela galharia negra da caatinga morta. Os cavalos do animal pareciam tirar fogo nos seixos do caminho. Lagartixas davam carreirinhas intermitentes por cima das folhas secas no chão que estalavam como papel queimado.
O céu, transparente que doía, vibrava tremendo feito uma gaze repuxada.

Avaliação: 4 de 5.

Publicado por Diana Cheng

Jornalista, 24 anos. Adora passar horas perdida na narrativa de um bom livro. Além de ler, também se arrisca em escrever textos aleatórios e poemas sentimentais.

2 comentários em “O Quinze, de Rachel de Queiroz

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