Colorless Tsukuru Tazaki and His Years of Pilgrimage, de Haruki Murakami

Aqui está um livro do Haruki Murakami. Colorless Tsukuru Tazaki and His Years of Pilgrimage tem a estrutura conhecida das histórias do autor e todas as características de sua escrita. E ainda assim, por ser diferente de tudo o que ele publicou, arranca uma sensação estranha de nós; uma desconfiança que logo vira aceitação.

Somos mais uma vez contemplados com um enredo em que o principal foco são as relações humanas. Quem já leu algum trabalho do Murakami vai entender que este é um aspecto muito comum nos livros dele. O escritor sabe como desenvolver personagens complexos, totalmente suscetíveis a falhas e explosões de humor, vontade e sentimento, mas reconheço que o incolor Tsukuru Tazaki extrapolou as minhas expectativas. E isso é maravilhoso. Assustador, mas maravilhoso.

Anos vazios

Do início ao fim, o livro transmite uma atmosfera carregada. Vamos descobrindo, depois que Tsukuru é expulso do grupo de amigos do ensino médio, como a rejeição passou a moldar a vida do personagem principal.

Usando uma linha de narrativa diferenciada, com flashes de diferentes momentos da vida de Tsukuru, Murakami testa o curso da memória para relembrar as partes felizes na tentativa de explicar o motivo dos traumas, da reclusão e dos pensamentos ruins do protagonista, que se transformou, em um certo ponto, numa casca vazia.

Quase duas décadas depois, Tsukuru decide reencontrar os antigos amigos – Ao, Aka, Shiro e Kuro – para descobrir, enfim, o motivo que o levou a ser excluído. Uma vez que somos expostos aos seus pensamentos mais sombrios, ficamos sem saber se Tsukuru é realmente o culpado dessa separação. Murakami tem um fraco por universos paralelos e sonhos que não são apenas sonhos, mas uma prova dos desejos mais secretos de uma pessoa. Isso abre possibilidade para muitas coisas, inclusive ao ato de vilanizar o mocinho.

Influência de um nome

Mais do que buscar a paz interior, Tsukuru chega à conclusão de que está na hora de enfrentar seus temores para começar a buscar por algo maior: um significado para seu nome, aparentemente tão… ausente de cor.

Trecho do livro

Enquanto todos os outros integrantes do grupo têm nomes que remetem a cores – Ao é Azul, Aka é vermelho, Kuro é preto e Shiro é branco –, Tsukuru é o único que se destoa. Seu nome, que significa algo como “aquele que faz ou constrói”, é o primeiro indício da falta de uma conexão maior com os amigos. Mas não é o único, pois o personagem vive pondo a si mesmo para baixo, achando que é inferior aos demais, sem grandes ambições e qualidades que o coloque no mesmo nível.

Embora não seja regra para a vida real, vemos no livro como o nome – e, portanto, a cor – influencia o temperamento dos personagens, seus gostos pessoais e suas decisões tanto para a esfera pessoal quanto profissional. Em Colorless Tsukuru Tazaki and His Years of Pilgrimage, o nome tem poder e diz muito sobre a trajetória de quem o carrega como um troféu – ou um fardo, no caso de Tsukuru.

Ler ou não ler?

Colorless Tsukuru Tazaki and His Years of Pilgrimage é muito mais introspectivo do que qualquer outro livro do Murakami que já li. Se pensarmos rápido, podemos considerar que ele aborda temas mais sensíveis e parece extremamente triste, como se o vazio das primeiras páginas se transformasse em um vácuo ainda maior no desfecho. Mas isso seria reduzir a história de Tsukuru a somente um ponto de vista.

Como de praxe, o leitor não ganha resposta para inúmeras perguntas. O autor não esclarece o que pode ter acontecido com Tsukuru – se ele conseguiu, enfim, motivos para levar adiante o peso do seu nome e construir coisas bonitas e significativas a partir disso.

O que sabemos é o que podemos interpretar de seus últimos devaneios, quando sua mente parece prestes a voltar àquele lugar sombrio dos dias ruins, mas acaba acordando para a vida. Para a dor e a decepção. Para tudo o que é intrinsecamente humano.

Não sugiro o livro como um ponto de partida para quem está pensando em conhecer o autor. Já para quem o conhece, reforço a importância de ler Colorless Tsukuru Tazaki and His Years of Pilgrimage como forma de relembrar a escrita de Murakami e ao mesmo tempo entrar em contato com algo totalmente novo dele.

In the deepest recesses of his soul, Tsukuru Tazaki understood. One heart is not connected to another through harmony alone. They are, instead, linked deeply through their wounds. Pain linked to pain, fragility to fragility. There is no silence without a cry of grief, no forgiveness without bloodshed, no acceptance without a passage through acute loss. That is what lies at the roots of true harmony.

Avaliação: 4 de 5.

Publicado por Diana Cheng

Jornalista, 23 anos. Adora passar horas perdida na narrativa de um bom livro. Além de ler, também se arrisca em escrever textos aleatórios e poemas sentimentais.

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